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Quarta-feira, 23 de Setembro 2026
Educação

Pressão política limita autonomia da maioria dos professores da rede pública, indica pesquisa

61,7% dos docentes dizem que a pressão política limita sua autonomia no trabalho, e 75,6% temem consequências profissionais caso suas decisões contrariem interesses políticos

Correio Regional São Paulo
Por Correio Regional São Paulo
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Pressão política limita autonomia da maioria dos professores da rede pública, indica pesquisa
Foto: Pillar Pedreira/Agência Senado
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Levantamento com 2235 profissionais da educação básica pública, realizado pela FGV EAESP (Escola de Administração de Empresas de São Paulo) em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), aponta que 61,7% dos docentes entrevistados sentem que a pressão política limita sua autonomia para exercer o trabalho como consideram adequado e 75,6% temem sofrer consequências profissionais caso suas decisões contrariem interesses políticos.

A pesquisa, conduzida pelos pesquisadores da FGV EAESP Gabriela Lotta, Virginia Rocha, Marcela Garcia Corrêa, Odisséia Carvalho e Caio de Souza Pinto Paoliello, ouviu professores dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio de todas as regiões do país, entre 23 de junho e 20 de agosto de 2026, por meio de questionário online divulgado com apoio da CNTE em grupos, redes e sites de sindicatos de professores(as). O projeto faz parte do CIPE (Centro de Estudos em Implementação de Políticas Educacionais) e conta com recursos da FAPESP.

A amostra foi obtida por conveniência - ou seja, não probabilística - e é composta por respostas voluntárias e anônimas, o que não permite generalizações para o conjunto da categoria docente brasileira embora tenha abrangência nacional. O questionário foi elaborado a partir de pesquisa qualitativa com 30 entrevistas com professores da rede municipal de São Paulo e organizado em eixos temáticos de perfil, autonomia, motivação e valores, e politização.

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Os dados indicam que a politização atravessa o cotidiano escolar mesmo fora de temas explicitamente polêmicos: 66,8% dos respondentes afirmam que decisões rotineiras do trabalho podem ser interpretadas como posicionamento político, e 71,7% relatam que sua atuação está hoje mais exposta a críticas políticas do que no passado. Além disso, 58% sentem pressão para mudar procedimentos por determinação política e 64,5% dizem ter pouco espaço para interpretar as regras e são forçados a apenas segui-las.

Apesar do cenário de pressão, o estudo aponta forte senso de propósito entre profissionais: 96,3% consideram importante contribuir para o bem-estar da sociedade e 88,6% avaliam positivamente sua relação com os alunos. Já a relação com as famílias é mais tensa - 44% relatam já ter tido conflitos com familiares de alunos por causa do trabalho.

O levantamento se insere em um contexto mais amplo de desvalorização da carreira docente. Um estudo do Instituto Semesp (2025) projeta um déficit de mais de 235 mil professores até 2040, atribuído a condições de trabalho precárias. A nota técnica também associa a percepção de politização a movimentos como o Escola Sem Partido e à atuação de parlamentares que acusam professores de “doutrinação política” em sala de aula. Dados do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE), levantados com mais de 3.000 profissionais entre 2010 e 2024, indicam que a maioria relatou ter sofrido, presenciado ou tomado conhecimento de situações de censura ligadas a temas políticos, de gênero e sexualidade, religiosos, étnico-raciais ou ao negacionismo científico.

A comparação internacional reforça o quadro de maior desgaste no Brasil: segundo a pesquisa TALIS 2024, da OCDE, os níveis de autonomia pedagógica dos docentes brasileiros são próximos da média dos países da organização, mas 47% dos professores brasileiros apontam a intimidação ou o abuso verbal por parte de alunos como fonte constante de estresse em sala de aula - quase o dobro da média da OCDE, de 25%.

A confiança na gestão escolar também aparece dividida entre os respondentes. A maioria (56,3%) diz confiar na direção de sua escola e acredita que serão apoiados pela direção em eventuais conflitos com famílias (54,9%). Já sobre o que influencia as decisões escolares, apenas 33,7% consideram que as ações de sua escola se baseiam sempre ou frequentemente em critérios técnicos, sem influência política, e a mesma proporção diz o mesmo sobre as decisões de seus gestores. 

Segundo os pesquisadores, os resultados evidenciam uma contradição na experiência docente brasileira: enquanto o discurso oficial exalta a autonomia pedagógica, a prática cotidiana é marcada por vigilância, medo de retaliação e cerceamento profissional. 

Esta pesquisa traz mais uma evidência de como a atuação dos profissionais dos serviços públicos vem sendo profundamente afetada, nos últimos anos, pelo aumento da politização e da polarização em torno das políticas públicas. E os efeitos não recaem apenas sobre esses profissionais. Quem está, em última instância, no meio desse fogo cruzado são os cidadãos, que podem ter seu acesso a serviços e direitos afetado pelas disputas políticas e pelo ambiente polarizado”, afirma a professora Gabriela Lotta. 

A pesquisa integra um projeto mais amplo sobre o impacto da polarização política nas condições de trabalho de profissionais da linha de frente dos serviços públicos.

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FONTE/CRÉDITOS: Por Agência Bori
Correio Regional São Paulo

Publicado por:

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