Terminar o tratamento contra o câncer nem sempre encerra as preocupações de pacientes e familiares. Depois da remissão, uma das maiores dúvidas é se a doença pode voltar. Nesse cenário, a biópsia líquida vem ganhando espaço como ferramenta capaz de complementar o acompanhamento médico, identificando sinais de recidiva por meio de um simples exame de sangue - antes que eles apareçam em exames de imagem ou avaliações clínicas tradicionais.
Segundo Arthur Silva, gerente regional para a América Latina de Diagnósticos de Precisão da QIAGEN, a possibilidade de monitorar o câncer por meio de informações moleculares representa uma mudança importante na forma como a doença é acompanhada após o tratamento.
"Durante muito tempo, o acompanhamento dos pacientes esteve baseado principalmente em exames de imagem e avaliações clínicas periódicas. Essas ferramentas continuam fundamentais, mas hoje conseguimos observar alterações biológicas que podem ocorrer antes de uma manifestação clínica ou radiológica".
A relevância do tema cresce em um momento de aumento expressivo da doença no país. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que o Brasil deve registrar 781 mil novos casos de câncer por ano até 2028 - ou cerca de 518 mil ao excluir os tumores de pele não melanoma -, um crescimento de pouco mais de 10% em relação ao triênio anterior, segundo dados divulgados no começo desse ano.
O interesse pela tecnologia também acompanha os avanços internacionais na medicina de precisão. Uma revisão publicada na Nature Medicine em dezembro de 2025 reúne evidências sobre o uso da biópsia líquida ao longo de todo o cuidado oncológico - da detecção ao monitoramento da doença. Entre as aplicações discutidas está a identificação da chamada doença residual mínima (MRD, na sigla em inglês): pequenas quantidades de material tumoral que podem permanecer no organismo após o tratamento.
O que é a biópsia líquida e como ela detecta a recidiva
Diferente da biópsia convencional, que exige a retirada de um fragmento do tumor, a biópsia líquida usa amostras de sangue para investigar vestígios deixados pelas células cancerígenas na circulação - entre eles, fragmentos de DNA tumoral circulante.
Por ser minimamente invasiva, a técnica pode ser repetida ao longo da jornada do paciente. Isso permite que médicos acompanhem mudanças no perfil molecular do câncer em diferentes momentos do tratamento e do seguimento clínico, algo que um exame de imagem isolado não captura.
O papel da biópsia líquida após o fim do tratamento
Embora frequentemente associada ao diagnóstico, a biópsia líquida tem aplicações que vão além: pode ajudar a identificar alterações genéticas relevantes para a escolha de terapias, monitorar a resposta aos medicamentos e apoiar a vigilância após o término do tratamento.
É nesse último ponto que cresce o interesse pela doença residual mínima. Mesmo após cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou terapias-alvo, pequenas quantidades de material tumoral podem permanecer no organismo sem serem detectadas pelos métodos tradicionais.
"A doença residual mínima não significa necessariamente que haverá recidiva, mas pode indicar que ainda existem sinais biológicos da presença tumoral. O acompanhamento molecular permite observar essas alterações de forma mais sensível, sempre em conjunto com os demais exames e avaliações clínicas".
Medicina de precisão: do retrato único ao monitoramento contínuo
O avanço das tecnologias de diagnóstico molecular tem ampliado as possibilidades de personalização do cuidado oncológico. Em vez de uma fotografia do tumor em um momento específico, a biópsia líquida permite acompanhar continuamente as alterações que ocorrem durante a evolução da doença.
Para Silva, esse é um dos principais diferenciais da medicina de precisão. "Cada tumor possui características biológicas próprias e pode evoluir de maneiras diferentes ao longo do tempo. Quando conseguimos monitorar essas mudanças por meio de marcadores moleculares no sangue, ampliamos nossa capacidade de compreender a resposta ao tratamento e apoiar estratégias mais individualizadas para cada paciente".
À medida que a oncologia avança para modelos cada vez mais personalizados, a integração entre exames de imagem, avaliações clínicas e dados moleculares tende a ganhar espaço na rotina médica. Nesse cenário, a biópsia líquida desponta como uma das tecnologias mais promissoras para ampliar o monitoramento do câncer e apoiar a identificação precoce de possíveis recidivas (reaparecimento) - em um país que, segundo o INCA, deve conviver com números crescentes da doença nos próximos anos.
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