Na última quarta (27/05), a Câmara dos Deputados aprovou a Proposta de Emenda à Constituição que prevê o fim da escala 6x1, medida que reacendeu debates sobre saúde mental, jornadas exaustivas e qualidade de vida no trabalho. O projeto, que ainda precisa passar pelo Senado, prevê um período de adaptação de até 14 meses para as empresas após a promulgação.
O avanço da proposta acontece em meio a uma crescente pressão popular por jornadas mais equilibradas e melhores condições de trabalho. Nas redes sociais e nas ruas, trabalhadores defendem modelos que garantam maior tempo de descanso e qualidade de vida.
A discussão ganha ainda mais força diante dos números relacionados à saúde mental no ambiente corporativo. Segundo dados da Previdência Social, os afastamentos por burnout cresceram 823% no Brasil em quatro anos: passaram de 823 casos registrados em 2021 para 7.595 em 2025.
Para Naiana Vargas, mentora de desenvolvimento pessoal e posicionamento profissional, os números refletem uma mudança importante na forma como profissionais e empresas enxergam produtividade e performance.
“Existe uma mudança cultural acontecendo. Durante muito tempo, o profissional valorizado era o que suportava excesso de pressão e disponibilidade constante. Hoje, as empresas começam a perceber que performance sustentável gera mais resultado do que exaustão contínua”.
Segundo a especialista, durante décadas o mercado associou excesso de trabalho a comprometimento e alta performance. Agora, porém, cresce a percepção de que a sobrecarga contínua afeta engajamento, tomada de decisão e desempenho. Na prática, empresas buscam inovação, criatividade e retenção, mas ainda mantêm modelos de trabalho que favorecem o esgotamento físico e emocional.
A mesma destaca que o debate sobre jornadas de trabalho acompanha um movimento global. Dados da OCDE mostram que países com menores jornadas médias semanais também aparecem entre os mais bem colocados em rankings de qualidade de vida, satisfação profissional e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. É o caso de países como Holanda, Dinamarca e Alemanha, onde a média semanal de trabalho varia entre 30 e 34 horas, sem que isso represente queda de produtividade ou desempenho econômico.
“Isso não é coincidência, está diretamente ligado à qualidade de vida e ao bem estar físico e emocional. O burnout não surge apenas pelo volume de trabalho, mas pela sensação permanente de que nunca é suficiente, somada a uma rotina exaustiva. A cultura da hiperperformance criou profissionais constantemente em alerta”.
Para a especialista, as discussões sobre bem estar no trabalho e modelos de jornada devem ganhar ainda mais espaço nos próximos anos, pressionando empresas a rever estruturas baseadas em excesso de disponibilidade e alta performance constante, pois o mercado começa a caminhar para uma lógica em que produtividade sustentável e bem estar deixam de ser vistos como conceitos opostos.
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