A parada cardíaca súbita (PCS) em jovens atletas amadores e profissionais vem chamando a atenção da Ciência e da comunidade médica mundial, pois as estatísticas apontam de 1 a 3 óbitos em cada 100 mil atletas. Mais relevante do que os números, cuja incidência é discreta, a ocorrência dos casos provoca repercussão e choca a opinião pública devido – em parte - à idade das vítimas e à relação dos atletas com o esporte, o que derruba parcialmente a percepção de que eles são membros do segmento mais saudável da sociedade.
Em estudo publicado no The New England Journal Medicine, em janeiro deste ano, é possível compreender a importância dessas fatalidades que nos colocam à frente do imponderável e do que provavelmente poderia ter sido evitado se medidas preventivas tivessem sido adotadas.
Os números absolutos revelam a incidência de um em 66 a 88 mil adolescentes em todo o mundo vítimas anualmente de PCS, sendo de três a cinco vezes maior em homens e atletas negros.
Causas
O estudo vai além e mostra que as principais causas de PCS em atletas com idade abaixo de 25 anos são canalopatias - doença geralmente de origem genética que pode levar a quadros de arritmias fatais e causas não explicadas (19%); cardiomiopatia hipertrófica – doença frequentemente hereditária, que dificulta o bombeamento do sangue e pode levar a arritmias fatais (13%); e anomalia na origem das artérias coronarianas - malformações congênitas das coronárias (11%).A grande novidade do artigo é a redução para os 25 anos ou mais do risco de morte súbita relacionado à doença arterial coronariana.
Para além das causas apontadas no estudo, vale destacar que o uso de esteroides anabolizantes também é fator que leva à PCS, especialmente em fisiculturistas, cujo consumo dessas substâncias sintéticas sabe-se ser maior do que outros grupos de atletas.
Prevenção primária e secundária
Para que essas fatalidades posam ser evitadas e os atletas participem de forma segura das atividades esportivas, o estudo indica a importância da triagem cardíaca – prevenção primária -, por meio de exames clínico e eletrocardiograma, que chega a detectar de 65 a 70% das condições letais.
Como resposta às ações imediatas de atendimento aos atletas que venham a apresentar Morte Súbita no Campo de Jogo – prevenção secundária - foi indicado o uso do Desfibrilador Externo Automático (DEA), cujo procedimento registrou taxa de sobrevivência de 48 a 89% dos casos, quando a desfibrilação ocorre em menos de três minutos após o episódio.
Segundo Silvana Vertematti, médica pediatra e especializada em Cardiologia Esportiva e Medicina Esportiva Infantojuvenil, do Hospital Edmundo Vasconcelos, de São Paulo, “a importância desse estudo é mostrar que o rastreamento simples e de baixo custo pode salvar a vida de muitos atletas amadores e profissionais. Além disso, o DEA também revelou ser importante aliado no momento de eventos trágicos, desde que a atuação da equipe médica seja rápida. Isso nos mostra que o planejamento adequado é o melhor recurso para evitar as mortes súbitas de atletas”.
Estatísticas e incidência
• Mundo (atletas jovens/alto rendimento) - A incidência de morte súbita cardíaca em esportes coletivos e de resistência é considerada rara, geralmente abaixo de 2 casos por 100.000 atletas por ano.
• Fisiculturismo Profissional - Este grupo apresenta risco significativamente elevado. Estudos publicados em 2025 indicaram que, entre fisiculturistas profissionais, a morte súbita atingiu 193,6 por 100.000 atletas, taxa cerca de 14 vezes maior do que em amadores. Mais recentemente, em 2025, o fisiculturismo no Brasil chamou a atenção por um número de mortes desproporcional em relação a esportes como futebol e vôlei
• Gênero e idade - Cerca de 75% das mortes súbitas cardíacas ocorrem em homens, com incidência de 3 a 4 vezes maior do que em mulheres. Casos são mais frequentes após os 12 anos de idade.
Retorno ao esporte
Segundo o estudo, um número crescente de evidências indica que muitos atletas podem retornar ao esporte após o tratamento específico da doença, sem aumento do risco, e as sociedades profissionais agora consideram o retorno à participação em esportes razoável ou apropriado, por meio da tomada de decisão compartilhada para diversas condições cardíacas, incluindo o tratamento da doença pre-existente.
Segundo a médica, “esse é sempre o objetivo do atleta, dos clubes e dos médicos do esporte, e promover o retorno com estratégia médica bem-definida é essencial para garantir a segurança clínica dos atletas”.
O estudo
O estudo publicado no The New England Journal Medicine neste ano diagnosticou 201 atletas com condições cardiológicas suspeitas para a prática esportiva. As medidas preventivas adotadas para cada caso foram determinantes para que nenhuma morte tivesse sido registrada entre esses atletas.
Casos notáveis
Esses acontecimentos, que normalmente se tornam midiáticos, trazem à tona a reflexão e a especulação do por que isso acontece. A resposta está na conclusão desse estudo: prevenção e controle da saúde cardíaca.
Casos recentes de morte súbita em atletas, incluindo amadores e profissionais, escancaram a necessidade de exames cardiológicos preventivos. Tragédias recentes, como a da corredora amazonense Anna Sol Faria, que há 10 anos vivia na Capital Paulista e foi a óbito durante uma corrida de rua em novembro do ano passado, devido a infarto do miocárdio associado a uma condição cardíaca congênita, é um deles.
O jogador uruguaio Juan Manuel Izquierdo Viana foi um dos casos recentes mais emblemáticos após sofrer parada cardíaca durante a partida entre São Paulo e Nacional de Montevidéu, no Estádio do Morumbi, em maio de 2024, com transmissão ao vivo pela TV. Ele foi internado e faleceu em agosto do mesmo ano.
“Jogadores de futebol, corredores, fisiculturistas e frequentadores de academia têm registrado essas ocorrências que provavelmente não teriam ocorrido se eles tivessem identificado suas doenças ocultas por meio de exames e feito o planejamento de suas atividades esportivas”.
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