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Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Opinião

Quem realmente manda na fábrica quando o algoritmo começa a decidir?

De acordo com especialista, essa transformação não é apenas tecnológica, mas estrutural, pois altera o controle e a responsabilidade dentro das operações

Correio Regional São Paulo
Por Correio Regional São Paulo
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Durante décadas, a lógica industrial foi simples e quase incontestável: máquinas executam, pessoas decidem. Essa hierarquia sustentou a previsibilidade que sempre definiu a indústria. Mas agora, ela está deixando de existir.

Com o avanço da automação e, principalmente, da inteligência artificial, parte relevante das decisões operacionais já não passa mais diretamente pelas mãos humanas. Sistemas priorizam pedidos, ajustam linhas de produção em tempo real e antecipam falhas antes mesmo que elas se manifestem. Não se trata mais de eficiência. Trata-se de comando.

Em muitas operações, o algoritmo já ocupa, na prática, um espaço de decisão. Não porque alguém formalmente delegou esse papel, mas porque a complexidade e a velocidade dos processos tornaram a intervenção humana lenta demais.

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Um exemplo claro está nas linhas automatizadas que se reconfiguram sozinhas diante de uma mudança de demanda. O sistema redistribui recursos, altera sequências de produção e redefine prioridades em segundos. Nenhum operador conseguiria acompanhar esse ritmo. A decisão acontece, com ou sem supervisão direta.

O operador deixa de ser executor e passa a vigiar sistemas que ele nem sempre compreende por completo. O gestor, por sua vez, precisa confiar em decisões baseadas em dados que não acompanhou na origem. Entre ação e decisão, surge um novo agente, que é o algoritmo.

O problema é que essa mudança não está sendo tratada como mudança de poder. Está sendo tratada como evolução tecnológica. Muitas empresas adotam soluções avançadas sem redesenhar responsabilidades. Quando tudo funciona, o ganho de produtividade é celebrado. Quando algo falha, surge a pergunta que ninguém estruturou antes: quem responde por uma decisão que ninguém tomou diretamente?

A indústria sempre foi um ambiente de controle. Processos previsíveis, riscos calculados, decisões rastreáveis. Ao introduzir sistemas que aprendem, se adaptam e tomam decisões com base em padrões dinâmicos, esse controle deixa de ser centralizado e passa a ser distribuído.

E isso não é um problema e sim uma mudança estrutural. O risco está em não a reconhecer. O futuro da indústria não será definido apenas pela capacidade de automatizar processos, mas pela maturidade em governar decisões que não nascem mais exclusivamente do humano. Empresas que não estabelecerem critérios claros de supervisão, responsabilidade e entendimento sobre o papel dos algoritmos estarão operando com eficiência aparente e risco oculto. No fim, a pergunta não é mais quem manda na fábrica. É quem está preparado para assumir quando o sistema decide.

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FONTE/CRÉDITOS: Por Wellington Ott, especialista em automação industrial e sistemas inteligentes
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