O crescimento das plataformas de apostas esportivas no Brasil ultrapassou os limites de debate sobre regulamentação econômica para se transformar em uma questão relevante e urgente de saúde pública. A popularização das chamadas bets, impulsionada pela publicidade em massa, pelo ambiente digital e pelo acesso facilitado por smartphones, ampliou significativamente o número de brasileiros expostos ao jogo. Em paralelo, aumentam os relatos de dependência, ansiedade, depressão, endividamento, conflitos familiares e até mesmo a suicídios associados ao comportamento compulsivo de apostar.
Os efeitos dessa realidade chegam, inevitavelmente, ao Sistema Único de Saúde (SUS) e também ao mercado de saúde privado, que passam a absorver uma demanda crescente por atendimento psicológico, psiquiátrico e de assistência social. Dados do Ministério da Saúde ilustram bem esse cenário: a procura por serviços de saúde mental relacionados à dependência de jogos de azar cresceu cerca de 140% nos últimos cinco anos, evidenciando que o problema já extrapola a esfera individual e alcança toda a sociedade.
Do lado privado, o retrato é semelhante. A busca por consultas de psicologia e psiquiatria cresceu 18,5% somente em 2025, segundo a plataforma Doctoralia, e o consumo de antidepressivos entre adultos de 29 a 58 anos avançou 12,4% no intervalo de um ano encerrado em maio de 2025, segundo levantamento da Funcional Health Tech com beneficiários de programas corporativos de benefício farmácia - hoje esses medicamentos já são o segundo tipo mais consumido por essa população, atrás apenas dos antibióticos.
Para Rodrigo Metedieri Miguel, co-fundador e diretor executivo de operações (COO) da Vitta, o debate precisa avançar para uma dimensão pouco discutida: a sustentabilidade do sistema de saúde diante desse novo perfil de demanda. "Na gestão de saúde existe um princípio que nunca muda: os recursos são limitados. Sempre que surge uma nova demanda assistencial de grande escala, ela passa a disputar orçamento, profissionais e estrutura com doenças que já estavam na fila. Em saúde, infelizmente, não existe orçamento infinito", alerta. Segundo ele, esse é um conceito conhecido como custo de oportunidade. Quando mais recursos são destinados ao tratamento de uma condição que poderia ser reduzida por políticas de prevenção, educação ou regulação mais eficiente, inevitavelmente sobra menos capacidade para atender outras necessidades da população.
"Cada psicólogo, psiquiatra, leito, consulta ou investimento direcionado ao tratamento dos efeitos da ludopatia deixa de estar disponível para outras pessoas que também dependem do SUS ou de um plano de saúde. Não se trata de discutir se essas pessoas merecem atendimento - elas merecem. A questão é que alguém sempre paga a conta, e normalmente é todo o sistema".
Na avaliação do executivo, o problema ganha contornos ainda mais relevantes porque o custo produzido pelo jogo não permanece com quem obtém os lucros da atividade econômica. "Existe uma assimetria importante nessa equação, pois o faturamento das plataformas é privado, mas uma parcela significativa das consequências acaba sendo absorvida coletivamente por meio do sistema público de saúde, dos planos de saúde privados, da assistência social e até da perda de produtividade econômica. É uma externalidade que precisa entrar na conta quando discutimos políticas públicas", afirma.
Essa desproporção também aparece, com outros contornos, no mercado de saúde suplementar. Cerca de 1/4 da população brasileira tem acesso a um plano de saúde, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), e a maior parte desses vínculos, cerca de 70%, é corporativa, contratada por empresas para seus funcionários.
"No mercado corporativo de saúde, a conta chega na produtividade e no reajuste do plano. A maioria dos gestores já percebem a queda de produtividade ligada ao vício em apostas dentro das empresas e o impacto direto na saúde mental das equipes. Isso tudo, cedo ou tarde, é incorporado ao custo operacional”.
Os planos coletivos empresariais, maioria dos beneficiários e sem teto regulado pela ANS, seguem sendo reajustados na casa dos dois dígitos e essa conta chega para as empresas na forma de reajuste. Segundo dados da InfoMoney, no último ciclo comparável, os planos individuais subiram 6,91% enquanto os coletivos ficaram entre 18% e 25%, cerca de três vezes mais.
O executivo ressalta que o desafio não está em demonizar um setor econômico, mas em reconhecer que toda atividade capaz de gerar impactos relevantes sobre a saúde da população exige mecanismos de prevenção proporcionais ao risco que produz. "Na saúde, aprendemos que prevenir quase sempre custa menos do que tratar. Quando a prevenção falha, o tratamento chega, e com ele chegam também os custos, as filas e a necessidade de redistribuir recursos que já eram insuficientes", diz. Essa lógica se torna ainda mais preocupante em um sistema que historicamente opera sob forte pressão orçamentária.
A ampliação dos casos relacionados à dependência em apostas pode significar mais investimentos em saúde mental justamente em um cenário em que outras áreas - como cirurgias eletivas, doenças crônicas, atenção básica e reabilitação - também disputam os mesmos recursos, seja no orçamento do SUS, seja no orçamento das empresas que sustentam planos de saúde para seus funcionários. Ou seja, a discussão sobre as bets envolve uma pergunta essencial para qualquer gestor de saúde: quem deve arcar com os custos produzidos por uma atividade econômica quando seus impactos recaem sobre toda a sociedade?
Ajude o Correio a crescer e a melhorar!