Em um mercado que cresce impulsionado pela Geração Z e pelo consumo mais consciente, o mercado brasileiro de destilados premium vive um paradoxo. De um lado, cresce o interesse por coquetelaria autoral, experiências sensoriais e produtos de alto padrão. De outro, rótulos importados ainda ocupam posição dominante nas cartas de bares e restaurantes sofisticados, mesmo após o Brasil conquistar o maior título técnico do gin mundial.
Em 2024, a BEG Destilaria foi eleita “Best in Class” no International Wine & Spirit Competition (IWSC), em Londres, recebendo 98 pontos e medalha Ouro Outstanding - a maior honraria da categoria. A premiação colocou um gin brasileiro no topo absoluto entre concorrentes de tradicionais destilarias europeias e norte-americanas.
A conquista consolidou uma sequência de resultados expressivos: quatro medalhas consecutivas de Duplo Ouro no San Francisco World Spirits Awards (2021 a 2024), duas medalhas de Platina e 98 pontos no Bartender Spirits Awards, em 2023.
O paradoxo brasileiro
Apesar do reconhecimento global, o comportamento de consumo no Brasil ainda privilegia o “carimbo estrangeiro” como símbolo de status. Especialistas apontam que essa percepção está ligada a uma construção histórica que associa sofisticação ao que vem de fora - fenômeno frequentemente descrito como reflexo da chamada “síndrome de vira-lata”.
Para o especialista em destilaria Arthur Flosi, fundador da BEG Destilaria, o dado mais relevante não é apenas a medalha, mas o método.
“Competições como o IWSC são feitas às cegas, com jurados internacionais altamente especializados. Não há narrativa de marca. Há análise técnica rigorosa. Quando um gin brasileiro recebe 98 pontos e é eleito o melhor entre todos os concorrentes, isso é excelência comprovada”.
Segundo ele, em mercados como Estados Unidos e Singapura — onde a marca já está presente — o critério de escolha tende a ser mais pragmático.
“Nesses países, o consumidor olha pontuação, premiação e consistência. O valor percebido vem da qualidade entregue no copo”.
Nova geração, novo comportamento
O debate ganha força em um momento de transformação no perfil do consumidor. A Geração Z e os millennials vêm reduzindo o consumo por volume e priorizando qualidade, autenticidade e experiência. A cultura da coquetelaria premium cresce, e testes cegos se tornam mais comuns em eventos e bares especializados.
Nesse contexto, especialistas avaliam que o reconhecimento internacional de marcas brasileiras pode impulsionar exportações, fortalecer a indústria nacional e provocar uma revisão na lógica da prateleira.
O Retorno do Campeão: New World Navy
O relançamento do rótulo campeão BEG New World Navy deve funcionar como termômetro desse movimento: a chancela mundial será suficiente para alterar a percepção interna?
Mais do que uma conquista no universo dos destilados, o caso abre espaço para uma discussão mais ampla sobre economia criativa, comportamento de consumo e valorização da produção nacional - um debate que extrapola o copo e alcança a identidade econômica do país.
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