A estimativa de que 1,4 milhão de brasileiros tenha desenvolvido uma dependência relacionada às apostas ajuda a explicar por que a Elibrè, instituição de saúde mental de alto padrão localizada em Cotia (Grande Oeste), lançou em julho de 2026 o Programa Elibrè para Jogos & Apostas, a primeira iniciativa privada do país a propor um tratamento integrado para o transtorno do jogo, reunindo em um único plano terapêutico o cuidado psiquiátrico, financeiro, familiar e social do paciente, incorporando também uma metodologia moderna e inovadora, pautada na ciência de dados para acompanhamento de desfechos em saúde, o Measurement-Based Care (MBC).
Na prática, a maior parte das pessoas afetadas pelo jogo busca ajuda da forma mais intuitiva possível: procura um psicólogo, depois um psiquiatra, e em alguns casos tenta reorganizar sozinha as finanças, enquanto a família tenta ajudar do jeito que consegue. Cada uma dessas iniciativas pode ser importante, mas o desafio é que elas costumam acontecer de forma independente, sem que ninguém esteja de fato conectando as peças. Por isso, a clínica avalia que não faz sentido tratar o problema de forma fragmentada.
“O resultado é que o próprio paciente acaba sendo o elo entre profissionais, estratégias e decisões, justamente em um momento em que sua capacidade de organização já está comprometida pelo próprio transtorno”, conta Rodrigo Machado, médico psiquiatra pesquisador em dependências comportamentais pela Universidade de São Paulo e co-coordenador do Programa Elibrè para Jogos & Apostas. “A grande maioria dos programas de tratamento para transtorno do jogo ainda focam quase exclusivamente no comportamento de apostar, ou seja, em apenas uma das facetas do adoecimento. Mas, na prática clínica, entendemos que o processo de adoecimento é muito complexo e multifacetado. Sem uma abordagem verdadeiramente integrada e com adequada interlocução entre os profissionais que compõem a equipe de cuidado do paciente, dificilmente observamos uma evolução positiva”.
O médico explica que o paciente chega no consultório, normalmente, com a vida financeira comprometida, a família fragilizada e, muitas vezes, com sintomas de ansiedade ou depressão associados. “Um tratamento que não olha para esse conjunto tende a ser incompleto. Por isso estruturamos um programa que cuida da pessoa como um todo, e não apenas do sintoma que a trouxe até aqui”, completa.
Ary Ribeiro, diretor-executivo da Elibrè, que já atuou em instituições como o Hospital Israelita Albert Einstein, o HCor e o Hospital Infantil Sabará, além de instituições na Suécia, onde concluiu seu PhD pelo Instituto Karolinska, explica que cada pessoa com transtorno do jogo afeta, em média e de forma estimada, ao menos seis pessoas ao seu redor. “A fragmentação do cuidado é um problema crítico no Brasil e atravessa praticamente todas as especialidades da saúde. Na saúde mental, porém, ela ganha uma proporção ainda maior, porque o adoecimento nunca é individual. Além disso, quem sofre com essa doença costuma buscar ajuda apenas em estágio já muito avançado. Quando somamos esses fatores, o tratamento se complica, o risco de recaída aumenta e o adoecimento pode se estender à própria rede de apoio. É exatamente essa cadeia que um modelo integrado interrompe", comenta.
“O transtorno do jogo tem particularidades que exigem um olhar próprio: o ciclo de tentar recuperar o prejuízo na próxima aposta, chamado chasing, a vergonha que leva ao segredo dentro de casa, o endividamento que se acumula silenciosamente. Ao integrar psiquiatria, cuidado familiar e reorganização financeira em um único programa, somado ao uso da ciência de dados por meio do MBC para metrificação dos resultados, a Elibrè está propondo um modelo pioneiro no Brasil, construído a partir da pesquisa e da prática clínica em dependências comportamentais.”, conta Emílio G. Tazinaffo, médico psiquiatra, pesquisador em dependências comportamentais pela USP e co-coordenador do Programa Elibrè para Jogos & Apostas.
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