Quanto uma família precisa ganhar para pagar alimentação, moradia, transporte, saúde e educação, com alguma margem para imprevistos? A pergunta orienta o trabalho de Richard e Martha Anker, criadores de uma metodologia utilizada internacionalmente para estimar salários e rendas suficientes para cobrir essas despesas. Os pesquisadores estarão em São Paulo na próxima terça (03/11) para participar do seminário “Salário Digno e Renda Digna: Diálogos Transversais”, promovido pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pelo Anker Research Institute (ARI).
A visita marca o lançamento da parceria ARI-Cebrap e da Aliança para a Renda Digna e o Salário Digno, iniciativa que busca mobilizar o setor privado, o poder público e a sociedade civil em torno das condições de sustento dos trabalhadores e de suas famílias. O seminário será realizado das 14h às 17h30, no auditório Elza Berquó, na Vila Mariana, com participação gratuita e transmissão pelo canal do Cebrap no YouTube.
Com a definição do próximo governo, o encontro propõe discutir como transformar o debate sobre custo de vida e poder de compra em referências para políticas públicas e decisões de remuneração. A abordagem considera que o valor necessário para sustentar uma família varia conforme o lugar onde ela vive: despesas com alimentação, aluguel, transporte, educação, saúde, cultura, lazer e outras bens e serviços essenciais têm pesos diferentes entre regiões e municípios.
Fundadores do Anker Research Institute, os dois pesquisadores desenvolveram a Metodologia Anker®, que estima o custo de uma vida digna para trabalhadores e suas famílias a partir das condições locais, após mais de 30 anos trabalhando na Organização das Nações Unidas. Richard Anker foi economista sênior da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Martha Anker atuou como epidemiologista e estatística na Organização Mundial da Saúde (OMS).
Do orçamento doméstico às decisões sobre remuneração
O salário digno é uma referência de remuneração pelo trabalho em uma jornada normal, suficiente para que o trabalhador e sua família tenham condições adequadas de vida. A renda digna considera os recursos necessários ao sustento familiar também em situações nas quais os ganhos vêm da agricultura familiar, do trabalho autônomo e de outras atividades produtivas.
As estimativas levam em conta despesas essenciais, tamanho da família, número de trabalhadores que contribuem para o orçamento doméstico e, no cálculo do salário, descontos obrigatórios sobre a remuneração. A proposta é oferecer uma base para avaliar a distância entre os rendimentos recebidos e o custo de vida em cada território.
Para Ian Prates, diretor da Iniciativa ARI-Cebrap, essa perspectiva permite aproximar o debate sobre remuneração das despesas das famílias.
“O cálculo territorializado de salário digno ajuda a responder uma pergunta simples, mas fundamental: qual é o valor necessário para que uma família viva com dignidade em determinado local? Quando consideramos o território, fica claro que o custo de vida básico não é igual em todas as regiões do Brasil. O objetivo das nossas estimativas não é substituir o salário mínimo, negociações coletivas ou políticas existentes, mas oferecer uma referência técnica precisa e verificável para que empresas, governos, sindicatos e a sociedade civil tenham uma base comum para orientar decisões com maior responsabilidade social e econômica”, afirma.
Alimentação, cuidado e trabalho por aplicativos
O seminário relacionará o debate sobre salário e renda às pesquisas sobre segurança alimentar, desigualdades, trabalho e transição ecológica. A abertura reunirá Adrian Gurza Lavalle, presidente do Cebrap, Richard e Martha Anker e Ian Prates.
Na primeira mesa, Antônio José Corrêa do Prado, do Instituto Fome Zero/Corecon, e Jordano Roma, do Cebrap Sustentabilidade, discutirão renda digna, segurança alimentar e transição justa. O debate abordará as condições de vida de quem trabalha e produz alimentos diante das mudanças na economia e nas formas de produção, além do acesso à alimentação saudável.
A segunda mesa tratará das relações entre remuneração, responsabilidades de cuidado, desigualdades de raça e gênero e trabalho por plataformas digitais. Participam Nadya Guimarães, da USP e do Cuidde-Cebrap; Wesley Matheus, Afro-Cebrap e pesquisador OQGP/Insper e Presidente RBMA; e Victor Callil, do Nudes-Cebrap.
A parceria ARI-Cebrap desenvolve pesquisas e estimativas sobre salário digno e renda digna no Brasil. Os estudos oferecem referências para políticas públicas, negociações coletivas, estratégias de inclusão social e produtiva e decisões do setor privado.
Seminário: Salário Digno e Renda Digna: Diálogos transversais com as agendas de Trabalho, Desigualdades, Segurança Alimentar e Transição Justa
Data: terça-feira, 3 de novembro de 2026
Horário: das 14h às 17h30
Local: Auditório Elza Berquó, no Cebrap
Endereço: Rua Morgado de Mateus, 615, Vila Mariana
Participação: gratuita
Transmissão: canal do Cebrap no YouTube
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