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Sexta-feira, 30 de Outubro 2026
Saúde

Afastamentos por transtorno do jogo crescem cerca de 439% em dois anos

Levantamento divulgado nessa quarta (28) pelo Ministério do Trabalho mostra que benefícios por incapacidade temporária passaram de 67 em 2023 para 361 em 2025

Correio Regional São Paulo
Por Correio Regional São Paulo
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Afastamentos por transtorno do jogo crescem cerca de 439% em dois anos
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Dados divulgados nessa quarta (28) pela Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego, mostram um crescimento expressivo nos afastamentos relacionados ao transtorno do jogo. O número de trabalhadores que receberam benefício por incapacidade temporária do INSS passou de 67 em 2023 para 157 em 2024 e 361 em 2025, alta de cerca de 439% em dois anos, segundo informações da Previdência Social.

O avanço ocorre no mesmo período em que as apostas online ampliaram sua presença no Brasil. Os dados, porém, não permitem concluir que a expansão ou a regulamentação das bets tenha causado diretamente o aumento dos afastamentos. O próprio levantamento recomenda cautela na interpretação, já que os registros analisados correspondem a trabalhadores que tiveram acesso ao benefício previdenciário e passaram por avaliação para reconhecimento da incapacidade temporária.

O crescimento dos afastamentos também antecede uma mudança radical na política brasileira para o setor. Mês passado, o governo federal editou a Medida Provisória 1394, que proibiu em todo o país a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos online. As plataformas autorizadas deixaram de operar na terça (06). Os dados sobre afastamentos, porém, referem-se ao período anterior à proibição e ainda não permitem avaliar os efeitos da nova política sobre a ocorrência do transtorno do jogo.

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Para receber o benefício por incapacidade temporária, o segurado precisa apresentar uma condição de saúde que o impeça de exercer seu trabalho durante determinado período. Nos casos relacionados ao transtorno do jogo, os afastamentos mostram que os prejuízos podem ultrapassar a esfera financeira e alcançar também o funcionamento cotidiano e profissional.

O transtorno do jogo é classificado internacionalmente entre os transtornos decorrentes de comportamentos aditivos. Entre suas características estão dificuldade persistente de controlar as apostas, prioridade crescente dada ao jogo em relação a outras atividades e manutenção do comportamento mesmo diante de consequências negativas. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1,2% da população adulta mundial apresenta transtorno do jogo.

No levantamento brasileiro, os homens representam 71% dos beneficiários afastados. A maior concentração está entre pessoas de 30 a 49 anos: 44,1% têm entre 30 e 39 anos e 22,8% entre 40 e 49, somando 66,9% dos casos analisados.

“Quando o comportamento começa a comprometer trabalho, relações, sono, finanças e outras áreas importantes da vida, já não estamos falando apenas de uma escolha recreativa. O ponto de atenção é justamente a perda de controle e a manutenção do comportamento mesmo diante dos prejuízos”, afirma Vinícius Guimarães Dornelles.

A dimensão profissional é apenas uma parte dos possíveis prejuízos. A Organização Mundial da Saúde relaciona o jogo problemático a sofrimento psicológico, dificuldades financeiras, conflitos familiares, ruptura de relacionamentos e maior risco de problemas de saúde mental. O Ministério da Saúde brasileiro também aponta alterações de sono e humor, comprometimento do salário e das economias e abandono de atividades importantes entre os sinais de alerta.

Um dos comportamentos característicos do transtorno é a tentativa de recuperar perdas por meio de novas apostas. A pessoa pode aumentar progressivamente os valores apostados, esconder quanto tempo ou dinheiro destina ao jogo e encontrar dificuldade para interromper a atividade mesmo quando já reconhece os prejuízos.

“É comum que a pessoa tente resolver o problema repetindo exatamente o comportamento que já está causando sofrimento, na expectativa de recuperar o que perdeu ou aliviar emoções difíceis. O tratamento precisa olhar não apenas para a aposta, mas para as funções que aquele comportamento passa a ocupar na vida da pessoa”, diz Êdela Aparecida Nicoletti.

O crescimento dos registros previdenciários ocorre em meio a uma ampliação da procura por assistência. O Ministério da Saúde informa que os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. Desde 2026, o SUS também oferece teleatendimento específico para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, além do acolhimento pelas Unidades Básicas de Saúde e pelos Centros de Atenção Psicossocial.

A existência de um transtorno do jogo exige avaliação profissional. A intensidade ou a frequência das apostas, isoladamente, não definem um diagnóstico. Perda de controle, prioridade crescente dada ao jogo, prejuízos financeiros, sociais ou profissionais e persistência do comportamento apesar das consequências estão entre os aspectos considerados na avaliação clínica.

As evidências disponíveis também recomendam cautela na apresentação dos tratamentos. A Organização Mundial da Saúde aponta a terapia cognitivo-comportamental e a entrevista motivacional entre as intervenções psicológicas com melhor sustentação científica disponível para o transtorno do jogo. O acompanhamento deve considerar as características e necessidades de cada pessoa, inclusive a presença de outros problemas de saúde mental.

Para especialistas em saúde mental, a facilidade de acesso às apostas digitais acrescenta um desafio importante: o comportamento pode permanecer oculto por bastante tempo. A pessoa pode continuar trabalhando e mantendo parte da rotina enquanto acumula perdas, tenta recuperar dinheiro e enfrenta alterações emocionais, familiares e financeiras. Reconhecer precocemente os prejuízos permite buscar assistência antes que o comprometimento alcance outras áreas da vida.

“Nem toda pessoa que aposta desenvolve um transtorno, e esse cuidado é importante para evitar diagnósticos precipitados. O alerta aparece quando existe perda de controle, repetição apesar das consequências e comprometimento significativo da vida. Quanto antes esses sinais são reconhecidos, maiores são as possibilidades de procurar ajuda e construir alternativas ao comportamento”.

Sinais que merecem atenção

Entre os sinais apontados pelo Ministério da Saúde estão esconder ou mentir sobre tempo e dinheiro gastos com apostas; apostar novamente para tentar recuperar perdas; comprometer contas, salário ou economias; apresentar alterações no sono, no humor ou na rotina; abandonar atividades importantes; e enfrentar conflitos familiares relacionados ao jogo.

Pessoas que identificarem prejuízos relacionados às apostas podem procurar uma Unidade Básica de Saúde ou um Centro de Atenção Psicossocial. O SUS também disponibiliza avaliação e teleatendimento pelo Meu SUS Digital para pessoas com problemas relacionados ao jogo e seus familiares.

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FONTE/CRÉDITOS: Por Redação
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