O acesso às apostas digitais, conhecidas como bets, transformou o celular em uma porta permanente para jogos que prometem ganhos rápidos, mas podem desencadear graves consequências emocionais, financeiras e sociais. Para a psicóloga, psicanalista e especialista em gestão emocional Danieli Vidal, o problema começa a ganhar dimensão preocupante quando a aposta deixa de ser uma atividade recreativa e passa a funcionar como uma maneira de lidar com a ansiedade, a solidão, a frustração ou outras formas de sofrimento psicológico.
O transtorno do jogo é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma condição relacionada a comportamentos aditivos. Entre as manifestações de alerta estão a dificuldade de interromper as apostas, a necessidade de aumentar os valores para obter a mesma excitação, as tentativas frustradas de parar e a insistência em jogar para recuperar o dinheiro perdido. Esse último comportamento pode intensificar o problema, pois diante do prejuízo, a pessoa passa a assumir riscos maiores na expectativa de reverter a situação, acumulando novas perdas. A imprevisibilidade dos resultados e a lembrança de vitórias ocasionais também podem alimentar a expectativa de que o próximo jogo será diferente, mesmo quando o saldo financeiro permanece negativo.
“O componente emocional é central para compreender a continuidade desse comportamento. Em muitos casos, apostar oferece uma distração temporária de sentimentos difíceis, criando a impressão de alívio ou de uma oportunidade de mudar rapidamente a própria realidade. As perdas podem provocar culpa, ansiedade e vergonha, sentimentos que, por sua vez, alimentam novas tentativas de apostar. Pouca gente fica presa às apostas só pelo dinheiro, o que prende é o que a aposta faz com o que a pessoa sente, em situações mais graves, o jogo compulsivo pode estar associado a intenso sofrimento psicológico, sintomas depressivos e desesperança. Quando a pessoa afirma que não vê saída para os problemas, manifesta pensamentos de morte ou demonstra risco de se machucar, é necessário buscar ajuda profissional imediatamente”.
A prevenção envolve reconhecer os primeiros sinais, estabelecer limites antes que o comportamento se agrave e procurar acompanhamento especializado quando houver perda de controle. Segundo a especialista, os sinais também podem aparecer na rotina antes das consequências financeiras se tornarem evidentes, como as alterações de humor, irritabilidade, noites mal dormidas, dificuldade de concentração, queda de rendimento profissional, afastamento de amigos e familiares, ocultação de gastos e pedidos recorrentes de dinheiro emprestado merecem atenção, especialmente quando ocorrem em conjunto.
A vergonha e o medo de julgamento podem fazer com que a pessoa esconda as perdas e adie a procura por ajuda, agravando o isolamento. Por isso, familiares e amigos devem abordar o assunto com acolhimento, sem humilhações ou acusações. O tratamento psicológico pode ajudar a identificar os gatilhos emocionais e desenvolver formas mais saudáveis de enfrentar a frustração e a ansiedade, e em determinados casos, a avaliação psiquiátrica também é indicada. Os efeitos também atingem quem convive com o apostador, os familiares também podem buscar apoio para lidar com os impactos emocionais e financeiros.
Ajude o Correio a crescer e a melhorar!