Aguarde, carregando...

Sábado, 24 de Outubro 2026
Saúde

Bullying pode terminar na escola, mas suas marcas podem atravessar a vida adulta

Relato de Felca sobre violência escolar e fobia social chama atenção para consequências psicológicas persistentes e para a responsabilidade dos adultos na prevenção

Correio Regional São Paulo
Por Correio Regional São Paulo
/ 0 acessos
Bullying pode terminar na escola, mas suas marcas podem atravessar a vida adulta
Foto: Reprodução/YouTube/Felca
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

As agressões podem terminar quando a vítima deixa a escola, mas o medo, a vergonha e as dificuldades de relacionamento podem permanecer por muitos anos. O relato publicado por Felipe Pereira, de 28 anos, conhecido por ser o influenciador Felca, nessa terça (20), Dia Mundial de Combate ao Bullying, reacende o debate sobre as consequências psicológicas da violência escolar. No vídeo de mais de uma hora, ele revela episódios de agressão, humilhação e isolamento que vivencia desde os 12 anos e associa essas experiências ao transtorno de ansiedade social, conhecido como fobia social, que continua afetando sua vida adulta.

O influenciador descreve agressões físicas praticadas por colegas, situações de exposição humilhante e episódios em que procura ajuda, mas não encontra acolhimento. Também relata o medo de frequentar a escola, dificuldades para estabelecer relações sociais e o uso abusivo de álcool como tentativa de enfrentar situações que provocam ansiedade.

Uma revisão sistemática publicada em dezembro de 2025 na revista científica Behavioral Sciences, com base em 24 estudos longitudinais, identifica associações entre a exposição repetida ao bullying e problemas de saúde mental, como ansiedade, depressão, sintomas relacionados ao trauma e baixa autoestima. Os efeitos variam conforme as experiências individuais, a intensidade da violência e a presença de redes de apoio.

Leia Também:

Para a psicóloga Êdela Nicoletti, especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT) e Terapia Cognitivo-Comportamental, compreender essas consequências exige observar não apenas as agressões, mas também a maneira como o sofrimento é recebido pelos adultos. “Talvez uma das formas mais dolorosas de invalidação seja sofrer uma violência diante de pessoas que poderiam proteger você e descobrir que ninguém fará nada”, afirma.

Quando a violência encontra o silêncio

A ausência de intervenção diante do bullying representa uma falha na proteção de crianças e adolescentes. Entretanto, existe uma dimensão adicional do problema: a invalidação emocional, que ocorre quando sentimentos, experiências e percepções são desqualificados, minimizados ou tratados como exagerados.

Embora possam acontecer simultaneamente, omissão e invalidação não são a mesma coisa. Um adulto que presencia uma agressão e não intervém deixa de cumprir sua função de proteção. Quando também responde ao sofrimento dizendo que tudo não passa de uma brincadeira ou que a criança precisa aprender a se defender sozinha, acrescenta à experiência de violência uma mensagem de deslegitimação dos sentimentos.

“Uma criança que sofre bullying pode aprender que determinados ambientes e relações não são seguros. Mas, quando procura um adulto e seu sofrimento é minimizado ou desacreditado, pode aprender algo ainda mais doloroso: que suas emoções não são legítimas, que suas percepções não merecem confiança e que pedir ajuda talvez não adiante. Não estamos falando apenas da violência que ela sofreu, mas também das respostas que recebeu quando mais precisava de proteção”.

Na perspectiva da DBT, experiências recorrentes de invalidação podem contribuir para dificuldades na identificação, compreensão e regulação das emoções, especialmente quando interagem com vulnerabilidades individuais e outros fatores do desenvolvimento.

Como o medo e a vergonha podem persistir

A exposição repetida a situações de ameaça, rejeição e humilhação pode contribuir para a aprendizagem de respostas de medo. Com o tempo, interações sociais semelhantes às vividas durante as agressões podem provocar ansiedade, mesmo quando a pessoa já não se encontra no ambiente onde sofreu a violência.

O psicólogo Vinícius Dornelles, mestre em Psicologia na área de Cognição Humana e especialista em Terapia Comportamental Dialética, estuda as consequências do bullying e as possibilidades de intervenção. Ele é coorganizador, com Cristina Würdig Sayago, do livro Bullying: Avaliação e Intervenção em Terapia Cognitivo-Comportamental, publicado pela Sinopsys Editora em 2012, e coautor do capítulo Consequências do Bullying.

“Quando uma criança passa anos sendo humilhada ou ameaçada, pode aprender a antecipar rejeição mesmo em ambientes onde a violência já não está presente. A vergonha e o medo de novas experiências negativas podem favorecer o isolamento e a evitação de situações sociais. Isso ajuda a compreender por que as consequências podem continuar mesmo depois que as agressões terminam”.

Esses comportamentos de evitação podem proporcionar alívio imediato da ansiedade, mas, quando persistem, reduzem as oportunidades de construir novas experiências de segurança e confiança. “Evitar situações que provocam medo pode trazer uma sensação momentânea de proteção. O problema é que esse alívio pode reforçar o próprio comportamento de evitação. O tratamento busca ajudar a pessoa a desenvolver novas formas de lidar com as emoções e a retomar, gradualmente e com apoio adequado, atividades e relações que foram prejudicadas pelo sofrimento”, acrescenta o psicólogo.

No vídeo, Felca relata que, apesar da exposição pública exigida por sua profissão, continua enfrentando ansiedade intensa antes de entrevistas, gravações e compromissos sociais. Embora experiências de bullying estejam associadas ao aumento do risco de transtornos mentais, o desenvolvimento dessas condições envolve múltiplos fatores e não pode ser atribuído a uma única causa.

Prevenção e tratamento começam com o acolhimento

O enfrentamento do bullying exige a participação de famílias, escolas e profissionais de saúde. Mudanças de comportamento, isolamento, resistência frequente para ir à escola, alterações no sono e queda no rendimento escolar podem indicar sofrimento e merecem atenção.

Além de interromper as agressões, é necessário garantir que crianças e adolescentes encontrem adultos dispostos a ouvir, reconhecer suas experiências e oferecer proteção. Quando as consequências psicológicas persistem, o acompanhamento profissional permite avaliar os sintomas e identificar intervenções adequadas.

O tema também ganha destaque em 5 de novembro, quando a UNESCO promove o Dia Internacional contra a Violência e o Bullying na Escola, incluindo o Cyberbullying. Em 2026, a mobilização enfatiza a transformação dos compromissos de proteção em ações concretas de prevenção, promoção da saúde mental e apoio psicossocial.

Ao final do vídeo, Felca anuncia a intenção de oferecer palestras gratuitas em escolas para conscientizar estudantes sobre as consequências do bullying. A iniciativa reforça uma discussão que precisa continuar mesmo depois que as agressões terminam. Afinal, interromper a violência protege o presente, mas reconhecer o sofrimento e garantir acesso ao cuidado também pode mudar o futuro de quem passou por ela.

Ajude o Correio a crescer e a melhorar!

FONTE/CRÉDITOS: Por Redação
Correio Regional São Paulo

Publicado por:

Correio Regional São Paulo

O Correio Regional São Paulo é um portal de notícias a serviço do estado de São Paulo. É gerenciado pela ComunicaConde Marketing & Imprensa. Um dos melhores portais de notícias do estado de São Paulo em 2024 e 2025 pelo Brasil Publisher Awards.

Saiba Mais
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR