Quase R$ 100 bilhões por ano. Esse é o prejuízo estimado pelo Banco Mundial para o Brasil em decorrência da discriminação contra a população LGBTQIA+, que ainda enfrenta barreiras para acessar e permanecer no mercado de trabalho. Na ponta desse cenário, organizações da sociedade civil lidam diariamente com os efeitos concretos dessa exclusão. No Casarão Brasil – Associação LGBTI, dados de 2025 mostram que 46,39% dos atendimentos estiveram ligados a conflitos familiares.
Para o presidente da organização, Rogério de Oliveira, os números revelam uma realidade que ultrapassa as estatísticas e demanda respostas permanentes. “Nosso foco, enquanto OSC que atua prioritariamente com essa população, é atender necessidades básicas, romper barreiras e demonstrar, com dados, que se trata de um público que busca acesso a serviços de saúde, educação e novas oportunidades”, afirma, ressaltando que, em 2026, a associação completa 18 anos de atuação.
Os registros ajudam a dimensionar a complexidade das vulnerabilidades enfrentadas por quem procura apoio. Além dos conflitos familiares, aparecem atendimentos sem classificação definida (15,67%), demandas relacionadas à saúde mental (13,79%) e desemprego (12,23%). Também há casos envolvendo migração, violência doméstica e abandono, indicando que a exclusão atravessa múltiplas dimensões da vida social.
Qualificação como estratégia de autonomia
Além do acolhimento, a entidade investe em qualificação profissional como caminho para ampliar a autonomia dos atendidos. Um dos exemplos é o curso de panificação básica, desenvolvido em parceria com a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social, com recursos de emenda parlamentar. A formação combina conteúdo técnico e desenvolvimento de competências socioemocionais, com foco na inserção no mercado de trabalho e na geração de renda.
“O curso tem como objetivo capacitar profissionalmente, ampliar oportunidades de empregabilidade e incentivar a geração de renda. Também contribui para o fortalecimento da autoestima e para a construção de trajetórias mais dignas”, explica Rogério. Segundo ele, a proposta prepara os participantes para atuar em padarias, confeitarias e outros estabelecimentos do setor alimentício, além de abrir possibilidades para o empreendedorismo e o trabalho autônomo.
A seleção prioriza pessoas já atendidas pela instituição, especialmente aquelas em situação de desemprego, insegurança alimentar ou baixa renda. O processo inclui cadastro socioeconômico, entrevistas e acompanhamento da equipe técnica, considerando interesse, disponibilidade e potencial de aproveitamento da formação.
Após a conclusão das aulas, o acompanhamento continua com orientação profissional, desenvolvimento de habilidades socioemocionais, articulação com empresas e monitoramento de resultados. A iniciativa amplia as chances de inserção produtiva e utiliza a rede de parceiros da organização para divulgar perfis e facilitar o acesso a oportunidades de trabalho e geração de renda, além de oferecer suporte para empreendedorismo, formalização de pequenos negócios e economia solidária.
Apesar dessas iniciativas, o avanço da diversidade no ambiente corporativo ainda enfrenta entraves. O gestor da OSC avalia que parte do problema está na concentração de esforços em ações pontuais. “As empresas privadas, em sua maioria, apoiam iniciativas LGBTI em períodos específicos, quando há maior visibilidade”, diz. Para ele, o desafio é estrutural. “É preciso transformar ações pontuais em políticas permanentes, construídas em parceria com organizações que atuam com essa população ao longo de todo o ano”, conclui.
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