Às vésperas das eleições que vão definir os próximos governadores dos 26 estados e do Distrito Federal, um estudo da consultoria Santo Caos mostra que nenhum dos governos estaduais no país consegue alinhar com excelência o que declara como prioridade, as decisões que toma, os recursos que movimenta e a estrutura que cria para transformar essas prioridades em execução.
O resultado faz parte do Radar Brasil, que aplicou aos 26 governos estaduais e do DF, a metodologia desenvolvida pela consultoria para diagnosticar cultura organizacional, a partir de cinco dimensões: Discurso, Decisões, Dinheiro, Dinâmica Social e Desenho Institucional. A análise foi realizada entre março e junho de 2026 e reuniu 3,6 mil pontos de dados, a partir de informações públicas sobre orçamento, indicadores sociais, planejamento, decisões administrativas e estrutura institucional, com dados do Tesouro Nacional, IBGE, INEP, TSE e Tribunais de Contas estaduais.
Um dos principais sinais dessa falta de excelência aparece na capacidade de transformar prioridades em compromissos que possam ser acompanhados ao longo do tempo. 25 dos 27 governos analisados não apresentam metas multianuais, com prazo e indicadores suficientes, para permitir que a população verifique se as principais prioridades declaradas foram efetivamente atendidas. Apenas Bahia e Minas Gerais cumprem esse requisito.
Para chegar a essa conclusão, o estudo cruzou, estado a estado, a maior carência da população identificada em 2022 com as prioridades declaradas nos planos de governo. O levantamento mostra que, na maior parte dos estados, existe alinhamento entre essas necessidades e as prioridades oficiais. A principal lacuna aparece na etapa seguinte: transformar essa direção em compromissos mensuráveis, com prazo e indicador que permitam acompanhar sua execução.
“Encontramos governos que sabem exatamente onde dói. O que eles não têm é um sistema que seja coerente no tratamento daquelas dores da população”, afirma Guilherme Françolin, sócio-fundador da Santo Caos. “É o mesmo desalinhamento que vemos toda semana dentro de empresas: a liderança sabe onde quer chegar, mas não transforma isso em meta, prazo e responsável”, completa.
O cruzamento com o cenário eleitoral de 2026 mostra ainda que 16 dos 25 governos que não têm metas multianuais são comandados por candidatos que disputam a permanência no cargo. O grupo reúne oito governadores eleitos em 2022 que buscam a reeleição e oito atuais ocupantes que assumiram o governo durante o mandato e agora disputam seu primeiro mandato próprio.
São Paulo lidera ranking, mas também não é consistente
São Paulo aparece com a maior média geral das cinco dimensões avaliadas, alcançando 64,6 pontos numa escala de 0 a 100 pontos. Mato Grosso do Sul, com 61,6, e Ceará, com 60,8 completam os três primeiros.
A pontuação paulista resulta de desempenhos bastante diferentes entre as dimensões. O estado alcança 85 pontos em Dinheiro e 71,8 em Decisões, mas registra 51 pontos em Discurso. Segundo o estudo, a diferença está relacionada à ausência, no plano de governo, de uma meta multianual mensurável para trabalho e renda, área identificada pelo próprio estado como sua maior carência.
O exemplo, segundo o executivo, mostra que uma mesma administração pode apresentar desempenho elevado em determinados aspectos e fragilidades em outros. É justamente essa combinação que o Radar Brasil considera para chegar à avaliação geral de cada governo.
Orientação política explica pouco da diferença
O Radar Brasil também encontrou pouca diferença no desempenho médio de governos de diferentes orientações políticas. Os estados governados por partidos classificados pelo estudo como progressistas alcançam 55,7 pontos, contra 55,1 entre os conservadores e 54,1 entre os de centro. A diferença entre os três grupos é de apenas 1,6 ponto.
Segundo a consultoria, a comparação foi feita a partir da orientação política dos partidos registrados no TSE à frente de cada administração. Para o sócio-fundador, os resultados indicam que a orientação partidária, isoladamente, não explica as diferenças encontradas entre os governos.
A pesquisa também mostra que vinte administrações estão na faixa “Intermediário”, entre 50 e 69 pontos, enquanto sete são classificadas como “Frágil”, entre 25 e 49 pontos.
Mais recursos não significam, necessariamente, melhor desempenho
A relação entre orçamento e desempenho também apresenta diferenças relevantes. Estados com estruturas orçamentárias menores aparecem entre os resultados acima do esperado para seu porte, enquanto alguns dos governos com maior disponibilidade de recursos ficam abaixo do esperado.
Na média dos 27 governos, Dinheiro é a dimensão com maior pontuação, 66,8, enquanto Dinâmica Social alcança 55,7. Discurso registra 50,7, Desenho Institucional, 50,6, e Decisões, 50,5.
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