O aumento do número de passageiros e a maior ocupação dos voos não significam, necessariamente, passagens aéreas mais baratas. Em algumas situações, ocorre justamente o contrário: à medida que cresce a procura e restam poucos lugares disponíveis, os sistemas de precificação das companhias podem elevar o valor dos últimos assentos. A explicação ajuda a entender o cenário da aviação brasileira. Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), 65,2 milhões de passageiros foram transportados no primeiro semestre de 2026. Em junho, a tarifa aérea doméstica média chegou a R$ 660,54 por trecho, aumento real de 0,3% em relação ao mesmo mês de 2025.
De acordo com Adalberto Mohai, professor de Aviação Civil da Universidade Anhembi Morumbi, não existe uma relação direta entre a ocupação das aeronaves e a redução dos preços. “Quando a demanda é elevada e os voos apresentam alta taxa de ocupação, pode ocorrer o contrário do que muitos imaginam: os sistemas de gerenciamento de receita das companhias podem aumentar gradualmente os preços dos assentos restantes”, explica.
As tarifas mais baixas, segundo ele, costumam aparecer quando as empresas precisam estimular a procura ou preencher voos com menor ocupação. “A ocupação elevada melhora a eficiência operacional das companhias, mas não significa, necessariamente, passagens mais baratas para o consumidor”, acrescenta.
O valor cobrado por uma passagem resulta da combinação de diferentes fatores econômicos e operacionais. Um dos principais é o querosene de aviação, que representa uma parcela relevante das despesas das empresas. A variação cambial também tem peso, já que custos como o aluguel de aeronaves (leasing) e a compra de peças são cotados em dólares.
Gastos aeroportuários, manutenção e mão de obra especializada também entram nessa conta. Além disso, as companhias adotam a chamada precificação dinâmica, pela qual os valores são alterados conforme a demanda, a antecedência da compra e a quantidade de lugares disponíveis. “Não existe um padrão único seguido por todas as empresas. Os preços são ajustados de acordo com as condições de cada voo e do mercado”, afirma o professor.
Queda
A concentração do mercado brasileiro em poucas companhias pode reduzir a intensidade da concorrência, mas, segundo o professor, não explica sozinha os valores cobrados. “O setor aeronáutico no Brasil tem custos operacionais elevados e margens de lucro historicamente reduzidas, o que limita a possibilidade de oferecer tarifas menores de forma contínua”, analisa.
A entrada de novas empresas e o consequente aumento da oferta de voos tendem a beneficiar os consumidores, desde que sejam acompanhados por condições econômicas favoráveis. Também seria necessário ampliar a infraestrutura aeroportuária para receber mais passageiros e operações sem comprometer a capacidade dos terminais. “Com custos menores e maior concorrência, as companhias terão melhores condições para ampliar a oferta de voos e repassar parte desses ganhos aos passageiros”, avalia.
Para que o crescimento da demanda resulte em tarifas mais competitivas, Mohai aponta ainda a necessidade de reduzir os custos estruturais da aviação brasileira. Entre as medidas estão políticas para diminuir o preço do combustível e a carga tributária, além de investimentos nos aeroportos.
Entretanto, o especialista não identifica, na conjuntura atual, uma expectativa consistente de redução generalizada dos custos das passagens. “A tendência dependerá da evolução de fatores como o câmbio, o preço internacional do petróleo, o custo do combustível de aviação e a inflação, entre outros aspectos igualmente relevantes”, diz.
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