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Sábado, 18 de Abril 2026

Meio Ambiente & ESG

Ensinar exige alegria e esperança, ainda!

Especialista reflete sobre como a educação climática pode transformar a paralisia da crise em ação nas escolas

Correio Regional São Paulo
Por Correio Regional São Paulo
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Ensinar exige alegria e esperança, ainda!
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Em abril de 2026, quatro astronautas partiram em direção à Lua e, pelo caminho, fotografaram a Terra. As imagens chegaram até nós com aquele poder que as fotos do espaço sempre tiveram: a sensação de ver o planeta de fora, inteiro, frágil, suspenso no escuro. Foi a primeira vez, desde o Apollo 17 em 1972, que seres humanos se aventuraram além da órbita baixa. 

Mais de cinquenta anos depois, olhamos de novo para o mesmo planeta azul e o que mudou não é a imagem, mas o que sabemos sobre o que está acontecendo com ele. E o que sabemos, hoje, nos obriga a questionar: o que fazemos com esse conhecimento?

Guardo sempre comigo uma frase de Paulo Freire que ajuda a responder essa reflexão: "O mundo não é, o mundo está sendo." Ela lembra que a realidade não é um dado fixo, algo que simplesmente existe e nos é entregue pronto. É um processo em construção e, portanto, passível de ser construído de outra forma. Esse entendimento é o que distingue o inconformismo da resignação, e é também o que torna a educação um ato político, não apenas pedagógico.

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Vivemos uma contradição histórica que torna esse inconformismo ainda mais necessário e também mais difícil ao mesmo tempo. Nunca a ciência foi tão clara sobre os mecanismos e as consequências da crise climática e ainda assim as emissões globais continuaram subindo. O problema não é a ausência de informação, mas a dificuldade de transformar conhecimento em ação coletiva.

É aqui que a escola entra, com toda a sua complexidade. Há um paradoxo que as educadoras e educadores conhecem bem: a informação, por si só, não transforma. A escola pode ensinar o ciclo do carbono, explicar o efeito estufa, mostrar os gráficos. E ainda assim os estudantes saem pela porta e entram num mundo que age como se não soubesse nada disso. O conhecimento sem pertencimento, sem inconformismo, sem esperança, não move ninguém.

É por isso que a educação climática que importa não é só a que informa, mas a que provoca. A que faz uma criança perguntar por que o rio mais próximo da escola tem nome, mas ninguém sabe onde ele está. A que convida um adolescente a imaginar como seria sua cidade com menos cimento e mais árvores. É a educação que parte do mundo como ele está sendo, para imaginar o mundo como ele pode vir a ser.

Freire também escreveu que ensinar exige alegria e esperança. Não a esperança passiva, aquela que espera que as coisas melhorem por conta própria, mas a esperança que age, que planeja, que se recusa a aceitar o mundo como ele é porque sabe que ele ainda está sendo feito. Essa distinção importa muito num momento em que é fácil cair na paralisia. E é ela que sustenta, silenciosamente, o trabalho de tantas educadoras pelo país.

Em mais de 1500 instituições do movimento Escolas pelo Clima espalhadas pelo Brasil, educadoras e educadores escolhem, todo ano, fazer diferente. Organizam feiras, cultivam hortas, mapeiam riscos climáticos no próprio bairro, escrevem cartas para gestores públicos, convidam as famílias para mutirões de plantio e recuperação de nascentes. São atos que ensinam, pelo exemplo, que o futuro não está entregue e que o mundo ainda está sendo construído por quem decide participar dessa construção.

As fotos da Artemis II chegam num Dia da Terra em que o planeta já ultrapassou 1,5°C de aquecimento médio em relação à era pré-industrial e é grande a distância entre os compromissos assumidos nas conferências climáticas e as políticas efetivamente implementadas. 

É muita coisa para carregar numa sala de aula. Mas olhar o planeta de fora sempre fez isso: lembrou que não há outro lugar possível para a vida como conhecemos existir. O mundo não é. O mundo está sendo. E a escola é um dos lugares onde essa construção acontece todos os dias.

Ensinar, nesse contexto, é um ato de resistência e de amor. Ainda.

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FONTE/CRÉDITOS: Por Lívia Ribeiro, sócia-diretora do Reconectta e diretora do movimento Escolas pelo Clima
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