O endividamento das mulheres brasileiras também está relacionado ao dinheiro destinado à manutenção da casa e ao cuidado da família. Entre as endividadas, 59% têm débitos ligados à compra de mantimentos e 42% a medicamentos ou tratamentos médicos, segundo o estudo publicado em junho deste ano, “Elas Pagam a Conta”, da Think Olga, laboratório de ideias independente que desenvolve pesquisas sobre desigualdades de gênero e autonomia feminina, em parceria com a Think Eva, consultoria de inovação social voltada à equidade de gênero.
Os dados ganham outra dimensão quando observados ao lado da posição ocupada pelas mulheres dentro das famílias. O levantamento mostra que 93% participam das finanças domésticas e 32% são as únicas responsáveis pelo sustento da casa. Na prática, administrar o dinheiro muitas vezes envolve conciliar contas fixas, necessidades dos filhos, alimentação, saúde e gastos que surgem ao longo do mês, enquanto permanece a expectativa de manter toda essa estrutura funcionando.
“Existe uma cobrança muito presente de que a mulher precisa dar conta. Dar conta da casa, dos filhos, das contas e dos imprevistos. Financeiramente, isso pode significar assumir um compromisso mesmo quando já não há espaço para ele naquele mês. O problema começa quando o cartão, o limite ou o empréstimo deixam de atender uma situação pontual e passam a complementar os recursos disponíveis de forma recorrente”, afirma Fernando Schmitt, diretor executivo (CEO) da plataforma Me Poupe!.
Esse conjunto de responsabilidades convive ainda com uma diferença de renda. Os dados reunidos pela pesquisa indicam uma diferença salarial média de 21% entre mulheres e homens, enquanto elas representam 50,6% das pessoas inadimplentes analisadas. Ao mesmo tempo, as brasileiras demonstram uma atuação mais frequente na tentativa de regularizar os débitos, fecham 25% mais acordos de renegociação e quitam 11,6% mais dívidas.
Os números também mostram que recuperar o controle financeiro não termina com a renegociação de uma conta atrasada. É necessário compreender o que provocou o desequilíbrio e qual parcela dos ganhos já está comprometida antes de assumir novas parcelas. Um acordo pode aliviar a pressão imediata, mas, se os compromissos mensais continuam acima do valor disponível, aumenta o risco de novos atrasos.
“Não existe uma única resposta para quem está endividado. Para algumas pessoas, o primeiro movimento é renegociar uma dívida cara e, para outras, rever gastos, reorganizar pagamentos ou encontrar uma fonte adicional de renda durante determinado período. Antes disso, porém, é preciso saber quanto entra, quanto já está comprometido e o que está fazendo aquela conta não fechar. Sem essa visão, qualquer solução tende a tratar apenas o efeito do problema”.
A renda extra aparece, nesse contexto, como uma das possibilidades para ampliar a margem financeira, e não como substituta de um planejamento mais amplo. Venda de produtos, prestação de serviços, trabalhos pontuais ou o aproveitamento de alguma habilidade profissional podem gerar recursos adicionais, principalmente quando existe um objetivo definido para esse valor, como reduzir um débito ou começar uma reserva.
“Renda extra pode ajudar, mas ela precisa ter destino. Quando o dinheiro adicional entra sem planejamento, ele pode desaparecer no mesmo fluxo que já estava desequilibrado. Se a pessoa decide que aquele recurso será usado para eliminar determinada dívida ou criar uma margem no orçamento, consegue transformar um esforço temporário em uma mudança mais consistente”.
Reconhecer quem assume cada compromisso financeiro e quanto essas responsabilidades representam ao longo do mês permite que o planejamento deixe de ser apenas uma soma de boletos e passe a refletir a forma como o dinheiro realmente circula dentro de casa. “Para mulheres que concentram parte significativa dessas obrigações, tornar essa divisão visível também significa criar espaço para os próprios objetivos financeiros, da quitação de dívidas à formação de uma reserva e ao planejamento de longo prazo”, finaliza o executivo.
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