A chegada de um novo bebê costuma ser motivo de alegria para a família, mas nem sempre é recebida da mesma forma pelo filho mais velho. Mudanças de comportamento, birras, choros frequentes e até regressões podem surgir nas semanas que antecedem ou sucedem o nascimento do irmão. Embora essas reações sejam esperadas em muitos casos, é importante que os pais saibam reconhecer quando fazem parte da adaptação e quando merecem um olhar mais atento.
O ciúme é um sentimento natural e pode aparecer em diferentes fases da vida. Na infância, ele costuma ser ainda mais intenso porque a criança está aprendendo a compreender e expressar as próprias emoções. A chegada de um irmão, muitas vezes, desencadeia para o primogênito uma sensação de que perdeu o lugar de filho único. Isso faz com que tema dividir o carinho e a atenção dos pais.
Segundo o psicólogo parental e CEO da Equipe AT, Filipe Colombini, esse sentimento costuma se manifestar de diferentes maneiras. "O que vemos com mais frequência são três sinais: o ciúme, que pode aparecer em forma de birras e explosões de raiva; a regressão, quando a criança volta a apresentar comportamentos de fases anteriores, como falar de maneira mais infantil; e uma sensibilidade emocional maior, com choros mais frequentes e irritabilidade", explica.
O especialista ressalta que, embora esses comportamentos muitas vezes sejam interpretados apenas como "birra", eles costumam ser uma forma de a criança expressar a insegurança diante da mudança na dinâmica familiar. "Normalmente, é a maneira que o pequeno encontra para demonstrar que precisa de mais atenção e cuidado nesse momento de transformação familiar", afirma Colombini.
Segundo o psicólogo, essas reações costumam diminuir conforme a criança se adapta à nova rotina. No entanto, quando se tornam muito intensas, persistentes ou passam a comprometer o convívio familiar, merecem atenção dos pais. A seguir, o especialista explica alguns comportamentos comuns e como lidar com eles.
Regressão a comportamentos infantis
Para chamar a atenção dos pais, é comum que algumas crianças voltem a querer usar c um hupeta, fralda ou até passem a falar como um bebê. Embora esse comportamento faça parte do processo de adaptação, o ideal é não incentivar esse retorno a hábitos já superados.
Uma forma de reduzir esse comportamento é envolver a criança nos preparativos para a chegada do irmão, fazendo com que ela se sinta participante desse novo momento da família.
Uma boa dica é envolver o pequeno em atividades relativas ao irmãozinho. “Pedir a ele para ajudar a escolher as roupinhas do bebê, participar da montagem do quartinho ou até cantar para o bebê são algumas das sugestões”, indica o psicólogo. “Quando a criança se sente parte da jornada, ela começa a construir um vínculo afetivo com o bebê ainda antes do nascimento”, diz. “Dessa forma, o papel de irmão mais velho passa a ser algo valorizado e até mesmo motivo de orgulho".
Explosões de raiva, choro frequente e comportamento agressivo
Não é raro que o primogênito fique mais irritado, chore com mais facilidade ou demonstre frustração durante esse período. No entanto, quando essas reações evoluem para agressões físicas, como bater, empurrar ou morder, é importante que os pais intervenham com firmeza, mas também com acolhimento.
"É importante conversar com o filho mais velho sobre a chegada do bebê de um jeito simples e cheio de carinho. Vale a pena deixar claro que o amor dos pais não vai diminuir, e que, muito pelo contrário, só irá crescer”, recomenda o psicólogo.
A orientação é, então, reforçar que a criança continua sendo muito especial para os pais. “Se ele demonstrar raiva ou resistência, aproveite para explicar, com calma, que bater ou gritar não resolve nada e não vai mudar o fato de que o bebê está chegando", orienta Filipe.
Necessidade constante de atenção
A necessidade de reafirmar seu lugar na família pode levar a criança a ficar mais agitada, fazer mais travessuras ou apresentar comportamentos considerados difíceis pelos adultos. Mas quase sempre, essas atitudes são uma forma de pedir atenção. "Vale a pena reservar um tempo exclusivo para o filho mais velho, sem distrações. Não precisa ser nada elaborado. Uma brincadeira, a leitura de um livro ou uma caminhada no parque já fazem toda a diferença”, explica o psicólogo. “Esses momentos mostram para a criança, sem precisar de palavras, que apesar de todas as mudanças, ela continua sendo muito importante e profundamente amada".
Ciúmes de elogios
Com a chegada do bebê, é comum que familiares e amigos concentrem a atenção no recém-nascido. Embora isso seja natural, é importante que o filho mais velho também se sinta visto e valorizado. Pequenos gestos de reconhecimento ajudam a reduzir a sensação de que perdeu espaço na família. "Os irmãos não precisam disputar carinho ou reconhecimento. Quando os pais valorizam as conquistas, os esforços e as características de cada filho, mostram que o amor não diminui com a chegada de um novo bebê, apenas se amplia", explica o psicólogo.
Quando o ciúme deixa de ser esperado?
Embora o ciúme faça parte do desenvolvimento infantil, os pais devem buscar ajuda profissional quando os comportamentos se tornam persistentes, muito intensos ou passam a comprometer o relacionamento familiar, a convivência escolar ou o bem-estar da criança.
"O objetivo não é impedir que o ciúme exista, porque ele faz parte do amadurecimento emocional. O mais importante é mostrar, por meio das atitudes, que existe espaço para todos na família. Quando a criança se sente segura e acolhida, ela aprende, aos poucos, que o amor dos pais não precisa ser dividido, apenas multiplicado".
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