Aprender algo novo na fase da vida adulta, como um idioma, uma habilidade profissional ou até mesmo um novo hobby, pode ser mais desafiador do que na juventude. Por mais que muitos associem essa dificuldade com a idade, especialistas explicam que fatores emocionais e comportamentais podem ter uma parcela de “responsabilidade” nesse processo.
Aproveitando que amanhã (28) de abril é Dia Mundial da Educação, a neurocientista Carol Garrafa dá ênfase aos desafios pouco discutidos que impactam diretamente na capacidade de aprendizado dos adultos, como o medo de errar, a vergonha do julgamento social e o excesso de multitarefa digital.
Segundo a especialista, o cérebro adulto possui a capacidade de aprender, mas algumas barreiras psicológicas acabam interferindo e atrasando esse processo.
“O cérebro mantém sua capacidade de adaptação ao longo da vida, um fenômeno conhecido como neuroplasticidade. O problema é que, na vida adulta, muitos fatores emocionais entram em cena. Vergonha de errar, medo de parecer incompetente ou receio de julgamento social acabam fazendo com que muitas pessoas evitem situações de aprendizado”.
Medo de errar trava o aprendizado
Na infância, ouvimos muito que errar faz parte do processo natural de aprender. Diferentemente do que se prega durante a vida adulta, na qual o erro passa a ser associado a incompetência ou fracasso, especialmente em ambientes profissionais. Esse receio excessivo leva muitas pessoas a evitarem desafios cognitivos, o que diminui as oportunidades de desenvolver novas habilidades.
“Aprender exige tentativa, erro e repetição. Quando o adulto passa a evitar o erro por vergonha ou medo de julgamento, ele interrompe um mecanismo fundamental do aprendizado. O cérebro precisa dessa experimentação para consolidar novas conexões neurais”.
Multitarefa digital prejudica a retenção de informações
Outro hábito que impacta diretamente o aprendizado é a prática comum na sociedade contemporânea de realizar várias tarefas ao mesmo tempo, principalmente com o uso constante de dispositivos digitais. Alternar entre e-mails, mensagens, redes sociais e outras atividades cria uma sobrecarga cognitiva que dificulta moldar e digerir o conhecimento.
“O cérebro tem dificuldade em realizar muitas tarefas complexas simultaneamente. Na verdade, ele alterna rapidamente entre elas. Cada mudança de foco exige um gasto de energia cognitiva e interrompe o processo de consolidação da informação, o que reduz a retenção do conteúdo aprendido”.
Essa dinâmica pode afetar especialmente adultos que tentam estudar enquanto lidam com múltiplas demandas profissionais e pessoais.
O cérebro adulto pode aprender
Mesmo com os desafios citados anteriormente, especialistas afirmam que o aprendizado ao longo da vida continua sendo possível e extremamente benéfico para a saúde cognitiva. Estimular o cérebro com novas habilidades, estudos ou atividades intelectuais fortalece conexões neurais, melhora a memória e até reduz o risco de declínio cognitivo.
Por isso, resgatar a curiosidade e encarar o erro como parte do processo é essencial. “Aprender algo novo exige foco, prática e disposição para sair da zona de conforto que, na verdade, deveria ser chamada de ‘zona de conformismo’, já que muitas pessoas não estão confortáveis, mas sim conformadas e estagnadas”, explica a neurocientista. “Quando o adulto compreende isso, o cérebro responde positivamente e segue se adaptando e aprendendo”, completa.
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