Apesar de o Big Brother Brasil se apresentar como um “retrato da sociedade”, um grupo segue sistematicamente invisível no reality show mais assistido do país: pessoas no espectro autista. Essa ausência não é casual - é estrutural. E, diferentemente do que muitos imaginam, não é inédita no formato Big Brother ao redor do mundo.
Em edições internacionais do programa, já houve participantes autistas que não apenas integraram o elenco, como chegaram longe no jogo. O exemplo mais conhecido é o de Ian Terry, vencedor do Big Brother dos Estados Unidos em 2014, que revelou publicamente estar no espectro autista. Anos depois, ele voltou ao reality em uma edição All Stars, ampliando o debate sobre neurodiversidade e convivência em ambientes de alta pressão.
Outro caso emblemático é o de Britini D’Angelo, participante do Big Brother dos Estados Unidos em 2023, que falou abertamente sobre ser autista durante o confinamento. Sua presença ajudou a trazer visibilidade ao tema, mostrando que pessoas no espectro podem participar de realities sem que isso seja tratado como limitação ou espetáculo.
Os precedentes existem - o que falta é vontade editorial. O BBB, no entanto, segue ancorado em um modelo que privilegia perfis comunicativos, performáticos, extrovertidos e emocionalmente “vendáveis”. Trata-se de um recorte comportamental que exclui, de forma silenciosa, quem não se encaixa no padrão neurotípico dominante.
Para o ativista do TEA Heitor Werneck, a ausência revela uma escolha consciente da produção.
“Quando outros países já mostraram que é possível incluir pessoas autistas no Big Brother, fica claro que o problema não é o formato. É a decisão de quem escolhe manter um único modelo de comportamento como regra”, afirma.
Além do processo de seleção, pesa o receio da exposição ao capacitismo. Pessoas autistas frequentemente têm suas atitudes interpretadas como frieza, arrogância ou falta de empatia - estigmas que, em um reality baseado no julgamento constante do público, podem se transformar em ataques virtuais e linchamentos simbólicos.
“A produção parece ter medo da reação do público, mas ignora que a televisão também educa. Excluir para evitar conflito é perpetuar o preconceito”, destaca Werneck.
Outro ponto central é a ausência de debate sobre adaptações razoáveis. Um reality verdadeiramente inclusivo precisaria rever dinâmicas de prova, edição de conflitos, estímulos sensoriais, acompanhamento psicológico e o próprio discurso narrativo do programa.
“Incluir uma pessoa autista não é colocá-la na casa para ver se ela aguenta a pressão. É assumir responsabilidade ética sobre o ambiente que se cria”, reforça o ativista.
A existência de participantes autistas em edições internacionais desmonta o argumento de que “não é possível” ou “não é viável”. A pergunta que permanece é outra: o Big Brother Brasil está disposto a rever seus próprios limites e o conceito de diversidade que vende ao público?
“Enquanto a neurodiversidade for tratada como risco e não como parte legítima da sociedade, o ‘retrato do Brasil’ exibido na TV continuará incompleto”.
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