A relação entre a reposição hormonal na menopausa e o risco de câncer de mama ainda gera dúvidas entre as mulheres. No entanto, o tratamento não apresenta os mesmos riscos para todas as pacientes. Fatores como o tipo de hormônio utilizado, a duração da terapia, a idade em que é iniciada e o histórico de saúde influenciam a avaliação dos riscos e benefícios. Por isso, a indicação deve ser individualizada, levando em conta as necessidades, os sintomas e as possíveis contraindicações de cada mulher.
Essa diferença ficou ainda mais evidente com o acompanhamento de longo prazo do estudo Women’s Health Initiative (WHI), cujos primeiros resultados ganharam repercussão mundial em 2002 e mudaram a forma como pacientes e profissionais de saúde encaravam a reposição hormonal.
Publicado no periódico científico JAMA, o acompanhamento dos ensaios clínicos mostrou resultados distintos conforme o esquema hormonal utilizado. Entre mulheres com útero, a combinação de estrogênio equino conjugado com acetato de medroxiprogesterona foi associada a uma maior incidência de câncer de mama. Já entre mulheres que haviam retirado o útero e receberam apenas estrogênio equino conjugado, foi observada menor incidência da doença em comparação ao grupo que recebeu placebo.
Segundo a médica ginecologista e mastologista Christine Alem, da Unicamp, a interpretação das evidências exige atenção às características de cada paciente e ao tratamento proposto. “É preciso avaliar cada caso individualmente, considerando as características e o histórico de saúde da mulher”, explica a especialista.
Comprimido, gel ou adesivo: a via de administração faz diferença?
A terapia hormonal pode ser administrada de diferentes formas, e a escolha depende das necessidades e das condições clínicas de cada paciente.
O estrogênio oral passa pelo fígado antes de chegar à circulação sistêmica. Já o estradiol transdérmico, disponível em apresentações como gel e adesivo, evita essa primeira passagem hepática e pode apresentar vantagens em relação ao risco de tromboembolismo venoso em determinadas pacientes.
Isso, porém, não significa que as apresentações transdérmicas estejam livres de riscos ou que sejam necessariamente mais seguras em relação ao câncer de mama. “Os efeitos dependem de outros fatores, incluindo o esquema hormonal utilizado e as características individuais da mulher”, explica a ginecologista.
A presença ou ausência do útero também influencia a escolha. Mulheres que mantêm o útero geralmente precisam associar ao estrogênio uma progesterona ou outro progestagênio adequado para proteger o endométrio contra os efeitos do estrogênio isolado. Já mulheres que retiraram o útero podem, em determinadas situações, utilizar estrogênio sem essa associação.
Por isso, a ginecologista alerta que a escolha do tratamento não deve ser feita apenas com base na preferência pela apresentação ou na promessa de que determinada formulação seja mais segura em todos os aspectos.
Histórico familiar de câncer de mama impede a reposição hormonal?
Ter uma mãe, irmã ou outro familiar que teve câncer de mama não significa, necessariamente, que a mulher esteja impedida de fazer terapia hormonal. A decisão exige uma avaliação individualizada, considerando o número de familiares afetados, a idade em que receberam o diagnóstico e a possibilidade de predisposição genética.
“O que precisamos entender é o risco individual daquela mulher”.
Alterações identificadas em exames de imagem também precisam ser avaliadas antes da decisão sobre o tratamento. Mulheres com histórico pessoal de câncer de mama, por sua vez, constituem um grupo diferente e exigem cuidados específicos. “Atualmente, a terapia hormonal sistêmica permanece contraindicada para mulheres com antecedente de câncer de mama, porque ainda não temos evidência suficiente de segurança para recomendar esse tratamento de forma geral”, afirma a médica.
A avaliação deve considerar, ainda, outros fatores que podem modificar os riscos, como pressão arterial, tabagismo, obesidade, diabetes, doenças hepáticas e histórico de problemas cardiovasculares ou tromboembólicos.
Quais são os benefícios de tratar os sintomas da menopausa?
O receio do câncer de mama merece atenção, mas não significa que todas as mulheres devam descartar a terapia hormonal sem uma avaliação médica. A decisão também precisa levar em conta os impactos dos sintomas da menopausa na qualidade de vida.
Ondas de calor, suor noturno, alterações do sono, sintomas geniturinários e dor durante as relações sexuais estão entre as manifestações que podem comprometer o bem-estar. A deficiência de estrogênio também está relacionada à perda de massa óssea, o que aumenta a preocupação com osteoporose e fraturas.
Segundo Christine, mulheres saudáveis, com sintomas importantes e sem contraindicações podem apresentar uma relação favorável entre benefícios e riscos, especialmente quando iniciam o tratamento antes dos 60 anos ou nos primeiros dez anos após a menopausa.
“A terapia hormonal é hoje o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores da menopausa e também apresenta benefícios importantes sobre a saúde óssea e os sintomas geniturinários”.
A especialista ressalta, no entanto, que a terapia não deve ser prescrita indiscriminadamente nem utilizada apenas com o objetivo de prevenir doenças crônicas em mulheres sem indicação. “Não devemos tratar a menopausa como uma doença, mas também não devemos tratar o sofrimento da mulher como algo que ela simplesmente precisa suportar. Quando existe indicação, a terapia hormonal é uma opção terapêutica legítima, eficaz e baseada em evidências”, diz.
Quais exames são necessários antes de iniciar o tratamento?
Antes de iniciar a terapia hormonal, a avaliação médica pode incluir a verificação da pressão arterial, do peso, dos hábitos de vida e do perfil metabólico, conforme as necessidades de cada paciente.
Em relação à saúde das mamas, é importante que o rastreamento esteja atualizado e seja adequado à idade e ao nível de risco individual. Histórico familiar, alterações em exames anteriores e outros fatores podem indicar a necessidade de investigação complementar.
Nem todas as mulheres precisam realizar uma bateria de dosagens hormonais para confirmar a menopausa. Em muitos casos, a história clínica e a avaliação dos sintomas são suficientes. Exames complementares devem ser solicitados de acordo com a indicação médica.
A decisão de iniciar, manter ou interromper a terapia hormonal deve ser reavaliada ao longo do tempo. A escolha considera não apenas os riscos associados ao tratamento, mas também a intensidade dos sintomas, os benefícios esperados e as condições de saúde da mulher.
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