A terceira fase da pesquisa Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros na Internet, do ChildFund, organização com cerca de 60 anos de atuação pela promoção e defesa dos direitos de crianças, adolescentes e jovens no Brasil, traz dados inéditos sobre a violência sexual on-line no Brasil ao incluir, pela primeira vez, entrevistas com vítimas e perpetradores (abusadores). Divulgado durante o Maio Laranja, mês do enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, o estudo aprofunda a compreensão sobre os mecanismos de ocorrência dessas violências no ambiente digital.
Os resultados foram apresentados durante o seminário “Maio Laranja: proteger é cuidar em todo lugar”, realizado na Câmara Municipal de São Paulo. Promovido pela organização, em parceria com o mandato do vereador Carlos Bezerra (PSD), o encontro reuniu especialistas, gestores públicos e representantes do sistema de Justiça para discutir estratégias de prevenção e proteção na internet e incluiu mesa técnica composta pelo vereador Carlos Bezerra Jr.; Mauricio Cunha, presidente executivo do ChildFund; Catarina Fugulin, fundadora da Plataforma 12; a jornalista Patrícia Ferraz e a educadora e influenciadora Sheylli Caleffi.
Realizado ao longo de três anos, o levantamento traz uma abordagem completa ao integrar dados quantitativos, qualitativos e relatos de diferentes atores envolvidos. A nova etapa, realizada em parceria com o Instituto Tecnologia e Dignidade Humana, amplia o escopo das análises ao trazer dimensões subjetivas, motivações e contextos que ajudam a explicar tanto a vulnerabilização de adolescentes quanto os mecanismos utilizados por agressores. “O estudo reforça a urgência de olhar para a violência sexual on-line contra crianças, jovens e adolescentes como um fenômeno complexo, que exige respostas articuladas entre o Estado, sociedade civil e empresas de tecnologia”, afirma Mauricio Cunha, presidente executivo do ChildFund.
“A violência sexual on-line contra crianças e adolescentes deixou de ser um problema invisível e distante da realidade das famílias brasileiras. Ela acontece nos jogos, nos aplicativos de mensagem e nas redes sociais acessadas diariamente por milhões de adolescentes. Quando uma pesquisa mostra que 94% dos jovens não sabem como denunciar esse tipo de violência, fica claro que esse enfrentamento precisa envolver Estado, escolas, famílias e plataformas digitais. Por isso, trazer esse debate para a Câmara Municipal, em parceria com o ChildFund, é tão importante neste momento", avalia o vereador Carlos Bezerra Jr.
A pesquisa completa teve duas etapas, antes desta última análise. A primeira, de caráter quantitativo, ouviu 8.436 adolescentes de 13 a 18 anos, em todas as regiões do país, por meio de um survey on-line aplicado com apoio de 30 organizações da sociedade civil parceiras do ChildFund, permitindo mapear percepções e experiências relacionadas à vulnerabilidade no mundo virtual. Na segunda etapa, qualitativa, os dados foram aprofundados a partir de grupos focais presenciais com 49 adolescentes de escolas públicas e privadas em Minas Gerais e no Ceará, conduzidos por psicólogas, que possibilitaram explorar de forma mais detalhada como os jovens percebem riscos, vivenciam situações de insegurança e constroem estratégias de autoproteção.
Relatos de vítimas revelam silêncio, culpa e ausência de apoio
Nesta publicação final do Mapeamento, foram realizadas entrevistas com três vítimas, que não tiveram seus nomes revelados no estudo, e mostram que a violência sexual on-line não ocorre de forma isolada, mas está profundamente ligada a contextos familiares, emocionais e sociais. Entre os principais fatores de vulnerabilidade identificados estão a ausência de diálogo sobre sexualidade, a falta de supervisão digital e o desconhecimento sobre riscos no ambiente virtual. Os relatos mostram ainda que as vítimas não reconhecem situações de abuso no momento em que ocorrem, especialmente quando há manipulação emocional por parte dos agressores. Em diversos casos, os perpetradores ocupam espaços de escuta e acolhimento que não são encontrados no ambiente familiar, criando vínculos que evoluem para controle psicológico e coerção.
Sentimentos de culpa, vergonha e medo de julgamento, especialmente em famílias com convivência mais rígida, aparecem como barreiras significativas para a denúncia. O Mapeamento, nas etapas anteriores, já tinha apontado que 54% dos adolescentes brasileiros entrevistados já sofreram violência sexual na internet, o que corresponde a 9,2 milhões; e 94% afirmam não saber como proceder em situações de risco de violência ou como denunciar esses casos. Os dados indicam que meninas apresentam risco 1,08 vez maior de sofrer violência sexual on-line, o que equivale a um aumento de aproximadamente 8%, em relação aos meninos. Ainda assim, o estudo ressalta que o abuso atinge ambos os sexos.
As consequências desses episódios se estendem para a vida adulta, com impactos como depressão, ansiedade, dificuldades de relacionamento, baixa autoestima, isolamento, repetição de padrões dentre outros vários efeitos.
Pornografia precoce, anonimato e uso de confiança
As entrevistas com três perpetradores anônimos, com idades entre 25 e 56 anos, que atualmente estão cumprindo pena em regime fechado, realizadas com apoio do sistema de justiça e conduzidas em ambiente prisional, trouxeram padrões nas trajetórias dos agressores. Entre os principais fatores identificados estão a exposição precoce à pornografia, muitas vezes antes dos dez anos, a ausência de diálogo familiar sobre sexualidade, históricos de violência doméstica e negligência emocional, além do uso intensivo de tecnologias digitais sem supervisão.
“A pesquisa quebra o mito de que alguém se torna abusador porque foi abusado na infância. Com esta fase, esse debate abre outros caminhos. Estamos diante de evidências de que o acesso precoce à pornografia pode gerar o abusador”, comenta Mauricio Cunha, presidente executivo do ChildFund.
O ambiente virtual oferece um espaço livre para comportamentos abusivos, pois possibilita anonimato, facilidade de acesso e oportunidades de contato com crianças e adolescentes de forma direta. Plataformas de jogos, redes sociais e aplicativos de mensagens são frequentemente utilizadas como “pontes de confiança”, permitindo que o contato inicial evolua para interações privadas e, posteriormente, para o abuso.
Além disso, os abusadores demonstraram distorções cognitivas sobre consentimento e limites, frequentemente minimizando a gravidade dos atos ou transferindo parte da responsabilidade às vítimas. Mesmo quando há reconhecimento posterior do crime, ele geralmente ocorre após a punição, e não como resultado de consciência prévia.
Cristiano Moura, gerente de Programas do ChildFund, aponta que o contato excessivo com a pornografia na infância pode provocar comportamentos que levam o perpetrador a praticar violência contra crianças e adolescentes. “Ao cruzar os dados quantitativos com os qualitativos, a pesquisa mostra que a pessoa adulta ultrapassa limites que não são aceitos pela sociedade, que chamamos de ‘escalada da pornografia’. Por isso, a resposta para evitar violência on-line contra o público infantojuvenil é a prevenção desde os primeiros anos de vida, com atividades que ensinam os pequenos acerca da gestão das emoções, do autoconhecimento sobre o corpo e tenham tempo para brincar e aumentar os vínculos familiares e comunitários, atividades que o ChildFund realiza por meio dos seus programas, nesses 60 anos de história no Brasil”.
Dados da segunda edição do Mapeamento indicaram que 41% dos adolescentes interagem com estranhos suspeitos na internet. O contato muitas vezes começa em jogos on-line, migra para plataformas como Discord e termina em aplicativos de mensagens, como WhatsApp e Telegram, responsáveis por 55% dessas interações e onde ocorre a troca de conteúdo íntimo.
Outro fator crítico é o período noturno. A pesquisa aponta que o sentimento de insegurança aumenta durante a madrugada, quando há menor supervisão. Esse intervalo é explorado pelos agressores, favorecendo o isolamento e dificultando intervenções das vítimas.
A pesquisa também identifica o silêncio como um “produto social”, ou seja, um comportamento construído pelas relações e contextos sociais. A falta de diálogo, o medo de julgamento e a ausência de acolhimento fazem com que muitas vítimas aprendam que falar sobre a violência pode gerar ainda mais sofrimento, reforçando o isolamento e dificultando denúncias e intervenções.
Além das iniciativas programáticas, o ChildFund atua em outra frente, que é a de transformar a causa em mudanças sociais. “Por meio de nossa mobilização com a sociedade, incidência em políticas públicas, parcerias institucionais ou pelas campanhas, como a do Maio Laranja, sensibilizamos famílias e atores políticos para aprimorar a legislação e conscientizar a todos acerca deste tema”, explica Águeda Barreto, especialista sênior em advocacy (políticas públicas.
Necessidade de ação integrada
O lançamento da terceira fase do Mapeamento acontece em um momento de avanço regulatório no país, com a entrada em vigor do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), em março deste ano. A legislação estabelece novas obrigações para plataformas digitais, como verificação de idade, maior controle parental e remoção ágil de conteúdos ilícitos. Essas mudanças foram resultado de anos de incidência técnica, articulação e diálogo do ChildFund e outros atores sociais com o poder público. A organização acompanha a agenda de proteção digital desde antes da apresentação do Projeto de Lei 2628/2022, que dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais, de autoria do senador Alessandro Vieira.
A terceira fase do Mapeamento também mostra lacunas no enfrentamento à violência sexual on-line, especialmente na ausência de sistemas nacionais que reúnam informações comparáveis e atualizadas. Para conferir o estudo completo na íntegra, acesse https://childfundbrasil.org.
Ajude o Correio a crescer e a melhorar!
Comentários: