A mostra “Para falar de amor” retorna em sua segunda edição no dia 7 de maio, quinta-feira, desta vez ocupando, até 7 de junho, de sexta a domingo, das 13h às 19h, um novo endereço no centro de São Paulo, o Edifício Cotonifício, no Largo do Paissandú, que passa a abrigar o novo espaço da plataforma Kura. Com curadoria de Saulo di Tarso e também de Kauê Fuoco, e realização da plataforma Kura, o projeto inaugura oficialmente o novo espaço e propõe uma experiência artística que articula produção, exposição e convivência em um mesmo ambiente. A classificação é livre e os ingressos podem ser adquiridos neste link. A mostra terá acesso gratuito na sexta-feira entre 13h e 15h, respeitando a capacidade máxima do edifício.
A exposição mantém seu caráter independente, sem fins lucrativos e sem patrocínio, consolidando um modelo de ocupação artística baseado na colaboração entre artistas. Instalado em um edifício em processo de transformação, o projeto propõe um laboratório vivo de criação, no qual ateliês, instalações e intervenções coexistem com o público. “A ideia nasce da ocupação como gesto criativo, ou seja, trabalhar dentro das condições existentes, sem a estrutura convencional de galeria, criando um ambiente de troca e de liberdade”, afirma Saulo di Tarso.
A nova edição surge a partir de um desdobramento da edição passada. Inicialmente concebida como uma ocupação voltada exclusivamente à street art, a proposta evoluiu ao longo do processo curatorial. “Eu havia proposto uma mostra chamada ‘Do que somos capazes’, enquanto outro eixo se chamava ‘Abraça’. Em determinado momento, percebemos que tudo isso já estava contido em ‘Para falar de amor’. E essa convergência deu origem ao projeto atual”, explica o curador. A exposição, portanto, baseia-se em uma pergunta central: “Do que somos capazes?”, entendida como uma provocação aberta à criação artística e à experiência coletiva.
Diferente da primeira edição, marcada por um ambiente de silêncio e introspecção, esta nova fase propõe uma ativação mais direta do espaço e das vozes. “Se antes havia uma busca pelo silêncio necessário à arte, agora há um movimento de ativação. O que somos capazes de fazer com a nossa própria arte? Essa é a pergunta que orienta a curadoria”, afirma Saulo. Segundo ele, a mostra também responde a um contexto mais amplo, marcado por tensões sociais e pela necessidade de reconstrução de vínculos. “Estamos em um momento em que tudo precisa de abraço. A arte tem essa capacidade de ressignificar vidas e espaços”, complementa.
Edifício simbólico e artistas
O edifício escolhido carrega uma dimensão simbólica. Localizado em uma das regiões mais emblemáticas da cidade da Capital, o Cotonifício reúne camadas históricas que vão da atividade industrial ao uso como hotel, refletindo transformações urbanas e sociais. “É um espaço que evoca a memória de um centro pulsante, que já foi um dos mais importantes da cidade. O trabalho do Kura é justamente atuar nessa ressignificação”, destaca o curador.
A exposição reúne 27 ocupações artísticas, com trabalhos desenvolvidos especialmente para o espaço, e apresenta um recorte expressivo da arte urbana contemporânea. Participam desta edição artistas como Bruna Serifa, letrista e muralista que utiliza a potência das palavras como combustível para criar peças coloridas em que o lettering é protagonista; Haroldo Paranhos Neto, artista visual, arquiteto e urbanista que atua no cruzamento multidisciplinar com projetos que envolvem murais, instalações site-specific e direção artística; Alexandre Vianna, que se dedica à fotografia expandida e a experiências audiovisuais imersivas; e Felipe Yung, conhecido como Flip, cuja trajetória iniciada no graffiti nos anos 1990 transita entre o espaço público e o institucional, entre muralismo, pintura, escultura e intervenções espaciais. Além de outros artistas que ajudam a construir a potência da street art paulistana. “O que vemos aqui é um conjunto de artistas que representam vozes muitas vezes invisibilizadas. A street art sempre foi isso: uma forma de dar visibilidade a populações e narrativas que não encontram espaço no circuito tradicional”, afirma Saulo.
A mostra propõe, ainda, um diálogo entre diferentes gerações e perspectivas da arte urbana latino-americana, com participação especial de Jaime Prades, pioneiro da arte de rua em São Paulo e integrante da primeira geração que levou a arte para o espaço público na cidade. Sua presença estabelece um contraponto com a série fotográfica de Vivian Bera, realizada no Peru, em que a artista registra, com olhar sensível, manifestações populares ligadas à festa de Nossa Senhora do Carmo e à ocupação ancestral das ruas como espaço de criação.
Ao aproximar essas experiências, a exposição amplia a reflexão sobre o que se entende como arte de rua na América Latina, sugerindo um olhar que atravessa milênios e ultrapassa o grafite contemporâneo. Esse eixo curatorial também se desdobra em encontros como o de Guto Lacaz, artista multimídia, enquanto as imagens de Vivian Bera ocupam o interior e o exterior do edifício, funcionando como fio condutor da narrativa expositiva.
Um dos destaques do projeto é a criação da chamada “Zona Neutra”, um espaço dentro do edifício pensado como área de experimentação contínua. Sem intervenções pré-definidas, o ambiente será ativado ao longo da mostra por artistas convidados e pelo próprio público, em um modelo de curadoria em processo. “É uma forma de devolver aos artistas a possibilidade de curar o próprio projeto. Eles podem convidar outros artistas, inclusive de outros países, para criar obras conectadas a essa ocupação. É uma mostra que não se fecha em si mesma”, explica o curador.
Autonomia para criação
Para Kauê Fuoco, idealizador do Kura e também curador da mostra, a exposição reafirma a autonomia como motor da criação. “A gente acredita que é possível realizar uma exposição desse porte sem depender de incentivos externos. Existe um valor na execução direta, no fazer com as próprias mãos. O Kura nasce dessa ideia de independência, de que a vontade e a prática têm força”, afirma. Segundo ele, o projeto também aponta para um futuro mais amplo do espaço, que deve integrar residências artísticas, iniciativas culturais e novos usos urbanos. “É sobre construir junto com a cidade. O desenvolvimento do projeto acontece junto com o desenvolvimento do entorno”, finaliza.
Serviço - Exposição “Para falar de amor” – 2ª edição
Abertura: 7 de maio de 2026 (quinta-feira), a partir das 13h
Período de visitação: De 7 de maio a 7 de junho de 2026
Horário: De sexta a domingo, das 13h às 19h
Local: Edifício Cotonifício, Largo do Paissandú, s/nº – Centro
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