São Paulo e o Brasil vivem um contraste no que diz respeito às finanças. Ao mesmo tempo em que o acesso ao crédito cresce e os serviços bancários se tornam mais simples e digitais, grande parte da população ainda enfrenta dificuldades para organizar o próprio dinheiro. Esse descompasso se reflete no aumento do endividamento e na perda de controle do orçamento familiar
Nos últimos anos, contratar crédito se tornou um processo cada vez mais rápido. Cartões chegam em casa sem que ninguém tenha solicitado, limites são elevados, empréstimos são liberados em poucos minutos e o parcelamento de compras é algo comum. Essas facilidades transformam a forma de consumir, mas não garantem preparo para lidar com os recursos disponíveis.
“Eu costumo dizer que o crédito funciona como uma porta aberta. Muitas pessoas entram sem saber exatamente onde estão entrando, é como se alguém começasse a dirigir sem conhecer as regras de trânsito e até o básico do funcionamento. O risco não está no acesso, mas na forma de uso”, aponta a educadora financeira Adriana Ricci.
Outro fator que impacta no dia a dia é o fato do dinheiro físico ter perdido espaço, enquanto os pagamentos digitais só reduzem a percepção de gasto. Sem visualizar o valor saindo, o controle diminui e as decisões acontecem de forma automática. Com isso, a renda das famílias não acompanha o ritmo. O crédito passa a cobrir despesas básicas e deixa de ser pontual, só que com o passar do tempo, as parcelas vão se acumulando e comprometendo boa parte do salário.
“A facilidade de acesso ao crédito cresceu rápido, mas o entendimento sobre como usar esse recurso ainda não acompanha. Muitas pessoas utilizam o crédito como renda e isso gera um desequilíbrio que aparece no endividamento. O crédito não é o problema, o problema está na forma como ele entra na rotina, sem planejamento, deixando de ajudar e passando a pressionar o orçamento”.
O comportamento de consumo também pesa nessa conta. Promoções constantes e opções de parcelamento criam a sensação de que tudo cabe no bolso. Um gasto que parece pequeno de forma isolada, quando somado a diversos outros, reduzem a renda disponível nos meses e até anos seguintes.
Situações comuns mostram esse efeito. Uma pessoa parcela roupas, eletrônicos e serviços simultaneamente, fazendo cada valor parecer leve, mas a soma compromete o orçamento ao longo do tempo. A falta de orientação financeira amplia essa dificuldade, afinal muitos brasileiros nunca tiveram contato com noções básicas de organização financeira, juros ou planejamento. Para muitos, construir uma reserva ainda parece algo distante.
“Vivemos um momento claro que demonstra que ampliar o acesso ao sistema financeiro não resolve sozinho os desafios das famílias. O avanço dos serviços precisa caminhar junto com informação e hábitos mais conscientes porque sem equilíbrio, a facilidade de hoje vira a dificuldade de amanhã. O primeiro passo é simples e possível para qualquer pessoa, olhar para os próprios gastos já muda a relação com o dinheiro. Quando a pessoa entende para onde o dinheiro vai, ela começa a tomar decisões melhores”.
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