Todo mês de janeiro a cena se repete nos consultórios. Pessoas que vinham treinando regularmente, dormindo melhor e mantendo uma alimentação organizada chegam com a mesma queixa: “Doutor, parece que meu corpo desandou no fim do ano”. E, na maioria das vezes, não é exagero.
Segundo o médico ortopedista e especialista em medicina esportiva Rodrigo Martinez, o impacto das festas de fim de ano vai muito além do ganho de peso. “As ceias não bagunçam só a dieta. Elas desorganizam o intestino, o sono, a hidratação, o fígado e até o estado inflamatório do corpo”, explica.
O problema, de acordo com o especialista, não está apenas em comer mais, mas em comer diferente do que o organismo está acostumado a processar. A combinação clássica de jejum prolongado durante o dia, excesso de alimentos gordurosos à noite, consumo elevado de álcool e poucas horas de sono cria uma sobrecarga fisiológica que o corpo sente rapidamente.
Intoxicação alimentar silenciosa
Quando se fala em intoxicação alimentar, muita gente pensa em algo grave, que exige internação. Mas existe uma forma muito mais comum e silenciosa desse problema. Ela acontece quando o sistema digestivo recebe, em poucas horas, uma grande quantidade de gordura, açúcar, álcool, carnes processadas e molhos prontos.
“O trato digestivo não consegue lidar bem com esse volume e com essas combinações. O resultado são sintomas como distensão abdominal, gases, azia, refluxo, diarreia, constipação, dor de cabeça e queda brusca de energia”, afirma o médico.
Esse processo inflamatório também afeta diretamente o rendimento físico. Treinos passam a render menos, a recuperação muscular piora, o sono fica fragmentado e até o humor sofre alterações. “Não é psicológico. É inflamatório”, reforça.
O problema não começa na balança
Outro erro comum é acreditar que o principal efeito das festas é o ganho de gordura corporal. Para Martinez, esse é apenas o último estágio do processo. Antes disso, o corpo passa por retenção de líquido, aumento da inflamação sistêmica, piora da sensibilidade à insulina e desorganização dos sinais de fome e saciedade.
“Você não ganha gordura significativa em dois ou três dias, mas pode sair desse período inchado, cansado e preso a um ciclo de beliscos que se estende por semanas. Por isso janeiro costuma ser o mês em que o corpo ainda está pagando a conta de dezembro”, explica.
Estratégia, não restrição
Para atravessar o fim de ano com menos impacto, o médico defende medidas simples e realistas. Chegar à ceia sem estar em jejum prolongado é uma das principais. Um almoço equilibrado, com boa quantidade de proteína e fibras, reduz drasticamente os exageros noturnos.
Outra orientação é escolher melhor os alimentos. “Não é preciso provar tudo. Misturar entradas gordurosas, prato principal pesado, sobremesas açucaradas e álcool na mesma refeição é pedir para o sistema digestivo entrar em colapso”, alerta.
A hidratação também é fundamental. A desidratação potencializa sintomas como dor de cabeça, azia e constipação. Alternar bebidas alcoólicas com água ajuda a reduzir o impacto no fígado e no intestino.
E há um fator frequentemente ignorado: o sono. “Virar noites seguidas desregula hormônios ligados à fome, saciedade e recuperação muscular. Não é coincidência que as pessoas acordem mais inchadas e cansadas após refeições pesadas e poucas horas de descanso”, pontua.
Janeiro não é mês de punição
Segundo o especialista, tentar compensar os excessos com dietas restritivas e treinos exagerados costuma piorar o cenário. “O corpo responde melhor à regularidade do que à radicalidade. Voltar ao básico refeições estruturadas, hidratação adequada, sono de qualidade e treino consistente é muito mais eficiente”.
Para o médico, o fim de ano não precisa ser um campo minado. “Dá para aproveitar, comer bem, brindar e ainda respeitar o próprio corpo. Quem entende isso não chega em janeiro tentando consertar estragos. Chega apenas retomando o ritmo. E essa diferença, no médio prazo, muda tudo”.
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FONTE/CRÉDITOS: Por Redação
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