Em um cenário de transformações no mercado de trabalho, marcado por mudanças nas relações profissionais e pela expansão de modelos mais flexíveis de ocupação no Brasil, jovens brasileiros têm revisto suas expectativas e passado a priorizar estabilidade e diversificação de fontes de renda. É o que mostra o relatório Next Generation Brasil, realizado pelo British Council, que ouviu mais de 3 mil pessoas de 16 a 35 anos em todas as regiões do país. O levantamento mostra que 66% estão preocupados com a possibilidade de não conseguir um trabalho que garanta segurança financeira no futuro.
Entre os principais desafios no ambiente profissional, 66% dos jovens apontam salários abaixo das expectativas e das necessidades básicas, enquanto 56% citam jornadas excessivas que impactam o bem-estar e o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Além disso, 31% relatam ambientes de trabalho hostis, com baixa moral e falta de apoio, e 29% destacam a escassez de oportunidades de crescimento.
Apesar desse contexto, o levantamento aponta uma mudança relevante na forma como os jovens encaram suas trajetórias. A segurança financeira aparece como principal prioridade: 62% dos entrevistados afirmam que esse é o fator mais importante para sua felicidade presente e futura, embora 27% relatem dificuldade frequente para cobrir despesas básicas.
Ao mesmo tempo, cresce o movimento de adaptação às novas exigências do mercado. Entre os cursos de curta duração mais desejados para aumentar a empregabilidade, 36% mencionam o uso de inteligência artificial como prioridade, enquanto 35% citam finanças pessoais e gestão de negócios e 34% destacam habilidades digitais. Os dados indicam uma geração mais atenta às transformações tecnológicas e às demandas emergentes do mundo do trabalho.
“Os dados mostram a importância de ampliar caminhos que conectem educação e mundo do trabalho de forma mais inclusiva. Quando os jovens colocam a segurança financeira como prioridade e demonstram interesse por novas competências, isso reforça a necessidade de ampliar o acesso a oportunidades de formação e de inserção produtiva mais sustentáveis ao longo do tempo”, afirma Bárbara Cagliari Lotierzo, Diretora Interina de Engajamento Cultural do British Council no Brasil.
As dinâmicas de inserção no mercado de trabalho variam de acordo com o contexto social e territorial. Entre jovens que vivem em favelas, 48% estão em ocupações informais, em comparação com 11% na média geral e 8% nas grandes cidades. Nesse grupo, 24% recebem menos de um salário mínimo, 62% são os principais responsáveis pela renda familiar e 36% relatam dificuldade para fechar o mês.
A renda média mensal dos trabalhadores informais é de R$ 2.808, enquanto trabalhadores formais recebem cerca de R$ 3.835, uma diferença de 36%. Entre os fatores que levam à informalidade estão a necessidade de complementar renda, a busca por flexibilidade e as dificuldades de acesso ao emprego formal, o que reforça a importância de iniciativas voltadas à inclusão produtiva.
Empreendedorismo e novas trajetórias profissionais
Diante desse cenário, o empreendedorismo se consolida como uma alternativa relevante para a juventude brasileira. O estudo mostra que 70% dos jovens pretendem abrir o próprio negócio nos próximos cinco anos, com interesse consistente entre diferentes regiões e perfis. Além disso, 48% afirmam que gostariam de empreender no futuro, 32% preferem esse caminho em relação ao emprego formal e 27% já desenvolvem alguma atividade informal ou fonte de renda extra.
Mais do que uma tendência, o dado reflete uma mudança de mentalidade. A busca por independência financeira lidera as motivações, citada por 56% dos jovens, seguida pelo desejo de maior autonomia e flexibilidade (49%). Ao mesmo tempo, o empreendedorismo surge como alternativa diante da percepção de um mercado com acesso limitado a oportunidades formais.
Os desafios, no entanto, permanecem claros. A falta de capital inicial é apontada como principal barreira, mencionada por 63% dos entrevistados, enquanto 52% indicam lacunas em conhecimentos de gestão e finanças. A burocracia também surge como entrave relevante, sinalizando a importância de políticas e iniciativas que facilitem a formalização e o desenvolvimento de novos negócios.
“O interesse pelo empreendedorismo mostra o potencial dos jovens brasileiros para criar soluções e gerar renda, mas também evidencia a necessidade de fortalecer o ecossistema que sustenta esses caminhos. Acesso à educação empreendedora, redes de apoio e financiamento são fatores decisivos para transformar a intenção em negócios sustentáveis e ampliar o impacto econômico e social dessas iniciativas”.
Além disso, o estudo evidencia uma percepção consolidada sobre a importância de ambientes de trabalho mais equitativos. A maioria dos jovens reconhece que ainda há espaço para avanços na garantia de igualdade de oportunidades, especialmente no acesso de mulheres a crescimento profissional e posições de liderança, o que indica uma geração mais atenta a desafios estruturais do mercado.
Metodologia da pesquisa
O estudo Next Generation Brasil, conduzido pela SOS Education, utilizou uma abordagem de métodos mistos para captar uma visão inclusiva dos brasileiros de 16 a 35 anos. A pesquisa quantitativa envolveu 3.248 participantes em todo o país (nível de confiança de 95%, margem de erro de ±2%), complementada por grupos focais e dezenas de entrevistas individuais com jovens de grupos sub-representados e líderes comunitários.
Adaptado do modelo global Next Generation do British Council, o questionário abordou temas como educação, trabalho, bem-estar, engajamento cívico e clima, incorporando categorias inclusivas de raça, gênero e identidade. Um Grupo Consultivo (Youth Task Force), composto por dez jovens líderes de diferentes regiões do Brasil, colaborou voluntariamente em todas as etapas, desde a adaptação do questionário até às recomendações de políticas públicas. A campanha de divulgação envolveu mais de 1.000 ONGs, escolas e universidades, com parcerias que incluiu a rede de Metrô de São Paulo.
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