Uma onça-parda (Puma concolor), espécie ameaçada de extinção no estado de São Paulo, foi morta após ser atropelada na madrugada do último sábado (10), na Avenida Senador José Ermírio de Moraes, sentido subida da Serra da Cantareira. A via corta o Parque Estadual da Cantareira, uma das mais importantes unidades de conservação de Mata Atlântica do país, ligando a Capital Paulista ao município de Mairiporã.
O atropelamento do felino é mais um episódio que evidencia a negligência do poder público em relação à gestão, fiscalização e monitoramento de uma estrada que atravessa uma área ambientalmente sensível. Sem qualquer sistema de monitoramento por câmeras, fiscalização permanente ou sinalização adequada para travessia de fauna, a via tornou-se um ponto crítico para atropelamentos de animais silvestres, acidentes de trânsito e outras irregularidades.
Além da ausência de controle, a estrada registra alta velocidade, ultrapassagens perigosas, tráfego irregular de caminhões, descarte ilegal de resíduos sólidos, além de assaltos frequentes. Em períodos de chuva, a situação se agrava: quedas de árvores são comuns, a manutenção é lenta e o acesso chega a ser interrompido. O trajeto íngreme, aliado à neblina constante, reduz drasticamente a visibilidade e aumenta o risco para motoristas, que frequentemente precisam desviar de galhos e detritos na pista.
O problema é intensificado pelo crescimento desordenado do turismo na região. Nos últimos anos, houve um aumento exponencial do fluxo de visitantes, sobretudo aos fins de semana, impulsionado majoritariamente pelo turismo gastronômico. Milhares de veículos passam pela estrada sem qualquer esquema de fiscalização, inclusive após o consumo de bebidas alcoólicas em restaurantes da região. Apesar desse crescimento, nenhuma infraestrutura viária, ambiental ou de segurança foi planejada ou implementada para suportar o aumento do tráfego, estimulado pela gestão municipal de Mairiporã.
A Serra da Cantareira é reconhecida pela UNESCO como parte da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo, título concedido em 1994 em razão de sua relevância ecológica, da biodiversidade e do papel fundamental na regulação climática e hídrica da Região Metropolitana. O Parque Estadual da Cantareira abriga uma das maiores áreas contínuas de Mata Atlântica em perímetro urbano do mundo.
A morte da onça-parda chama atenção para um problema estrutural, especialmente vulnerável na estrada que fragmenta o habitat natural dela sem medidas de mitigação, como passagens de fauna, redutores de velocidade, sinalização adequada e câmeras de monitoramento. O atropelamento e morte da onça não é um fato isolado, mas um alerta grave. Especialistas, moradores e organizações socioambientais cobram ações imediatas do poder público, como fiscalização permanente, controle de velocidade, instalação de passagens de fauna, monitoramento por câmeras, melhoria da sinalização e um plano integrado que concilie conservação ambiental, mobilidade e turismo responsável.
Enquanto essas medidas não forem adotadas, a estrada seguirá sendo uma ameaça não apenas à fauna silvestre, mas também à vida humana e à integridade de um dos patrimônios ambientais mais importantes do país. Por isso, neste domingo (18), está sendo organizado um ato para cobrar medidas de proteção.
Ato em defesa da fauna
Domingo (18)
Às 14h no Portal da PM na Serra da Cantareira
Organização: Brigada Popular Florestal Caxinguelê
Ajude o Correio a crescer e a melhorar!
Comentários: