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Sexta-feira, 30 de Outubro 2026
Saúde

Por que a mente demora a assimilar a perda e como atravessar os primeiros momentos

Psicólogo explica o impacto emocional de mortes inesperadas e apresenta cinco caminhos para lidar com a ausência sem transformar o sofrimento em culpa

Correio Regional São Paulo
Por Correio Regional São Paulo
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Por que a mente demora a assimilar a perda e como atravessar os primeiros momentos
Foto: Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM)
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Perda gestacional, tragédias aéreas, assassinatos e mortes súbitas têm algo em comum: acontecem, muitas vezes, sem dar à família a oportunidade de se preparar para a despedida. Diante de uma morte inesperada, o cérebro pode demorar a integrar a nova realidade, mesmo quando a pessoa já sabe racionalmente o que aconteceu. A sensação de irrealidade, a dificuldade de aceitar a ausência, a confusão mental e a busca por explicações podem fazer parte desse processo. No Dia de Finados, celebrado na segunda (02/11), falar sobre o luto é também reconhecer que algumas perdas interrompem não apenas uma vida, mas planos, expectativas e a possibilidade de dizer adeus.

Em 2025, o Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026. Por trás de cada ocorrência, há familiares e amigos que precisam lidar com uma perda que, muitas vezes, acontece de forma abrupta e traumática. Quando a morte chega sem aviso, o desafio de quem fica não é apenas compreender o que aconteceu, mas reorganizar a vida diante de uma ausência para a qual não houve preparação.

O que acontece no cérebro quando perdemos alguém de forma inesperada?

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A ciência tem investigado como o luto afeta a memória, a atenção, a aprendizagem e a regulação emocional. Uma revisão científica publicada em 2023 na revista Brain Research Bulletin, intitulada Competitive neurocognitive processes following bereavement, discute como a perda pode afetar o equilíbrio entre processos cognitivos envolvidos na aprendizagem e no controle das emoções. Esses mecanismos ajudam a contextualizar experiências relatadas por pessoas enlutadas, como dificuldade de concentração, esquecimentos, sensação de confusão e dificuldade de assimilar a ausência.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 na revista Neuroscience & Biobehavioral Reviews também examinou associações entre o luto e redes cerebrais relacionadas à regulação emocional, à recompensa e ao controle cognitivo. Embora a pesquisa ainda não explique integralmente como cada pessoa processa uma perda, os estudos reforçam que o luto é uma experiência complexa, com repercussões emocionais e cognitivas.

No caso de mortes repentinas, a ausência de preparação pode tornar a adaptação à nova realidade especialmente difícil. Isso não significa que o cérebro seja incapaz de compreender a morte, mas que reconhecer intelectualmente o ocorrido e assimilá-lo emocionalmente são processos diferentes. O tempo necessário varia de pessoa para pessoa, e não existe um prazo universal para superar uma perda.

“Quando uma morte acontece de forma repentina, a pessoa pode saber que perdeu alguém e, ainda assim, sentir dificuldade para assimilar a ausência. Isso acontece porque compreender racionalmente uma notícia não significa que todas as expectativas, os hábitos e os vínculos emocionais construídos ao longo de uma relação se reorganizem imediatamente. O luto precisa de espaço, acolhimento e tempo. Não devemos cobrar que alguém supere rapidamente uma perda, mas oferecer condições para que essa pessoa possa atravessar o processo sem culpa e sem isolamento”, explica Rodrigo Salles, professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Ciências do Envelhecimento da Universidade São Judas e doutor em psicologia clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Cinco caminhos para lidar com o luto por uma morte repentina

1) Respeite o próprio tempo para assimilar a perda

Choque, incredulidade, tristeza, raiva e sensação de vazio podem aparecer em diferentes momentos. Não é necessário aceitar tudo imediatamente, nem corresponder às expectativas de outras pessoas sobre como demonstrar sofrimento. O luto não segue uma sequência obrigatória e não tem um prazo igual para todos.

2) Encontre uma forma de se despedir, mesmo depois da morte

Quando não houve oportunidade de dizer adeus, rituais simbólicos podem ajudar algumas pessoas a expressar sentimentos e preservar a memória de quem morreu. Escrever uma carta, organizar fotografias, fazer uma homenagem ou visitar um lugar significativo são possibilidades, desde que façam sentido para a pessoa enlutada.

3) Permita-se receber apoio

Conversar com familiares, amigos ou outras pessoas de confiança pode ajudar a atravessar os momentos mais difíceis. Quem oferece apoio deve evitar frases como “você precisa ser forte” ou “já passou tempo suficiente”. Muitas vezes, ouvir com atenção, respeitar o silêncio e estar presente são atitudes mais úteis do que tentar encontrar uma explicação para a perda.

4) Cuide das necessidades básicas sem exigir produtividade

O sofrimento pode afetar o sono, o apetite, a concentração e a disposição para realizar tarefas cotidianas. Manter uma rotina possível, alimentar-se, descansar e aceitar ajuda nas atividades práticas pode oferecer sustentação durante esse período. O objetivo não é eliminar a dor, mas cuidar de si enquanto se aprende a conviver com ela.

5) Procure ajuda profissional quando necessário

O acompanhamento psicológico pode oferecer um espaço seguro para expressar sentimentos, trabalhar questões que ficaram em aberto e desenvolver recursos para lidar com a ausência. Se o sofrimento for persistente e intenso, prejudicar significativamente a vida cotidiana ou vier acompanhado de desesperança profunda, é importante buscar ajuda profissional. Em situações de risco imediato, deve-se procurar um serviço de emergência.

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FONTE/CRÉDITOS: Por Redação
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