A adoção de práticas ambientais, sociais e de governança (ESG) tem passado a influenciar decisões de consumo, condições de financiamento e percepção de risco das empresas no Brasil, segundo levantamentos recentes de mercado e análises acadêmicas. O movimento indica uma transição do tema, antes associado à reputação corporativa, para um fator com impactos diretos na competitividade.
Do lado do consumo, dados da Associação Paulista de Supermercados (APAS) mostram que 95% dos brasileiros priorizam produtos e serviços de empresas com práticas sustentáveis. Além disso, 64% afirmam já ter deixado de consumir marcas após tomarem conhecimento de comportamentos considerados antiéticos.
Apesar da valorização, o entendimento do conceito ainda é limitado. Pesquisa do Instituto Qualibest aponta que 89% dos consumidores consideram importante que empresas adotem práticas ESG, mas sete em cada dez entrevistados não conheciam a sigla. Quando informados sobre o significado, a percepção foi positiva.
Os dados também indicam diferenças na percepção entre os pilares do ESG. A agenda ambiental aparece como a mais valorizada pelos consumidores, enquanto temas ligados ao eixo social, como diversidade e inclusão, ainda enfrentam maior resistência.
No mercado financeiro, a incorporação do ESG também tem ganhado relevância. Revisão conduzida pelo NYU Stern Center for Sustainable Business, com base em mais de mil estudos acadêmicos, aponta que a maioria das análises identifica relação positiva ou neutra entre práticas ESG e desempenho financeiro das empresas.
De acordo com análises da McKinsey & Company, empresas com gestão mais estruturada de riscos ESG tendem a apresentar menor custo de equity, por serem percebidas como menos arriscadas por investidores. Esse fator pode contribuir para condições mais favoráveis de acesso à capital.
No Brasil, a agenda também se conecta à ampliação de linhas de financiamento voltadas à transição sustentável, sobretudo na indústria. O Fundo Clima, operado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, oferece crédito com taxas diferenciadas para projetos de eficiência energética, energias renováveis, transporte sustentável e gestão de resíduos.
Levantamento publicado pelo portal A Voz da Indústria indica que a Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial (ENDI), do Governo Federal, pretende contribuir para a neutralidade climática do Brasil até 2050, atuando na descarbonização de plantas industriais e modernizando processos, tudo alinhado com os objetivos do acordo de Paris.
Para isso, as diretrizes da estratégia incluem medidas como a eletrificação dos processos industriais, o uso de hidrogênio de baixo carbono e a captura e o armazenamento de carbono (CCUS). A lista também inclui a ampliação da eficiência energética e a necessidade de integração com políticas já existentes, sinalizando a expansão dos instrumentos de fomento à transição de baixo carbono no país.
Além dos aspectos financeiros, especialistas apontam que práticas ESG vêm sendo associadas ao fortalecimento da reputação corporativa e ao aumento da confiança de stakeholders (envolvidos na empresa). Em cadeias produtivas globalizadas, critérios de sustentabilidade têm se consolidado como exigência para inserção e manutenção de negócios.
Outro ponto observado em estudos recentes é a relação entre ESG e resiliência corporativa. Empresas com melhor desempenho nesses indicadores tendem a apresentar maior eficiência na alocação de capital, redução de custos operacionais e maior capacidade de resposta a cenários adversos.
A consolidação desses fatores sugere que o ESG passa a ocupar um papel estrutural na estratégia empresarial. Para especialistas, o desafio das empresas deixa de ser apenas a adesão ao conceito e passa a envolver a implementação consistente e mensurável das práticas.
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